Projeto

Bagaço pode virar gás e depois álcool

O Estado de S. Paulo
03/08/2009 03:21
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A transformação de caldo em etanol aproveita somente um terço do potencial energético da cana-de-açúcar. Os outros dois terços estão no bagaço e na palha. O Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) está criando, com um grupo de empresas, um projeto para desenvolver uma técnica de gaseificação de biomassa, que permitiria transformar esse material que hoje não é utilizado em vários produtos, como gasolina, diesel, metanol, etanol e fertilizantes.

 


“Fechamos um acordo com quatro grandes indústrias químicas do Brasil, definindo o modelo de fomento e de propriedade industrial”, disse João Fernandes Gomes de Oliveira, diretor-presidente do IPT. “Distribuímos o memorando de entendimento, que deve ser assinado até o fim do mês.” A planta piloto de gaseificação será instalada em Piracicaba (SP), em parceria com o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC).

 

O IPT tem 30 anos de pesquisa em gaseificação. “É uma tecnologia que funciona muito bem na bancada”, afirmou Oliveira. “O desafio é fazê-la funcionar em escala comercial.” O processo de gaseificação de carvão é usado comercialmente na África do Sul há muito tempo, desde a década de 50. Lá, eles transformam o carvão mineral em gás para depois convertê-lo em diesel e gasolina.

 

“Por causa do apartheid (política de segregação racial), eles não podiam importar petróleo”, explicou o pesquisador Ademar Hakuo Ushima, do IPT. “O processo é viável economicamente, pois eles continuaram a produzir combustíveis líquidos a partir do carvão depois do fim do apartheid.”

 

Mas não é possível adotar o mesmo processo para trabalhar com bagaço de cana porque as características das matérias-primas são muito diferentes. “Existem gargalos tecnológicos que levam à necessidade de adaptar a tecnologia”, apontou Ushima.

 

O processo de gaseificação acontece da seguinte forma: o bagaço e a palha de cana são colocados num gaseificador, que tem condições de pressão e oxigenação controladas. Eles são aquecidos a uma temperatura de 800º C a 1.200º C, com um terço do oxigênio que seria necessário para a sua combustão. A pressão é de 10 a 30 atmosferas.

 

O processo dá origem a um gás rico em monóxido de carbono e hidrogênio, que precisa passar por equipamentos e produtos químicos para que sejam retiradas impurezas, como o alcatrão. Depois disso, o gás é colocado em um reator de síntese, que transforma o gás em combustíveis líquidos e outros produtos.

 

Segundo Ushima, existem três desafios tecnológicos que ainda precisam ser vencidos no processo de gaseificação de biomassa. Um deles é como colocar o bagaço e a palha da cana no gaseificador sem perder a pressão. Outro são os materiais que precisam ser usados no gaseificador. “A cinza da biomassa é diferente”, afirmou o pesquisador. Em terceiro lugar está a purificação do gás, pois as impurezas também são diferentes.

 

O centro de gaseificação de biomassa de Piracicaba deve ficar pronto no fim de 2010. A ideia é que a pesquisa dure três anos, com o objetivo de chegar ao término desse período com o domínio de uma técnica que tenha viabilidade comercial. O IPT está submetendo o projeto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) para levantar de R$ 50 milhões a R$ 60 milhões para a pesquisa.

 

“Se a gaseificação servisse só para produzir etanol, não iria compensar, pois a tecnologia que temos hoje é bastante eficiente”, avaliou Alfred Szwarc, consultor da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica). “Com os outros produtos, começa a ficar interessante.” A gaseificação é uma das alternativas tecnológicas para se chegar ao chamado etanol de segunda geração, criado a partir da celulose.

 

Com 110 anos de existência, o IPT é o centro de pesquisas mais antigo do Brasil. O centro de gaseificação em Piracicaba faz parte de uma nova estratégia do instituto de reunir empresas em grandes projetos de pesquisa, que dificilmente seriam financiados por somente uma companhia.

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