Finanças

Altas do petróleo e commodities limitam atuação do BC no câmbio

Valor Econômico
12/08/2004 00:00
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Com os preços do petróleo na casa de US$ 44 o barril e as cotações das commodities nas alturas, a queda do dólar - ou pelo menos sua manutenção nos atuais níveis - ganha mais importância para o Banco Central cumprir as metas de inflação. Nesse cenário, a possibilidade de a autoridade monetária voltar a comprar dólares no mercado para recompor as reservas parece cada vez mais distante. Além disso, tudo indica que o BC vai ser menos agressivo em sua estratégia de reduzir a dívida doméstica atrelada ao câmbio, para evitar pressões indesejáveis sobre a moeda americana.
A economista Zeina Latif, do HSBC Investment Bank, entende que, no momento, o BC deve deixar em segundo plano objetivos como a recomposição de reservas e a melhora do perfil da dívida pública. No fim de 2003 e no começo deste ano, a liquidez global era muito elevada e as perspectivas em relação à trajetória dos índices de preços era favorável. Essa combinação permitiu que o Tesouro comprasse US$ 9 bilhões entre outubro e dezembro de 2003 e que, em janeiro, o BC adquirisse US$ 2,6 bilhões. O quadro favorável deu liberdade para que a autoridade monetária reduzisse a parcela da dívida doméstica atrelada ao dólar de 37% em dezembro de 2002 para 15,79% em junho deste ano.
O cenário hoje, porém, não é mais o mesmo. Em junho e julho, o fluxo cambial ficou negativo em US$ 2,316 bilhões e US$ 816 milhões, respectivamente. Zeina afirma ainda que, "ao contrário do ambiente do fim de 2003 e início deste ano, o cumprimento do centro da meta de inflação está ameaçado". Para este ano, o alvo é de 5,5%, com tolerância de 2,5 pontos percentuais, e a inflação projetada pelo mercado está em 7,2%. Para 2005, a meta é de 4,5%, mas os analistas projetam um IPCA de 5,5% (a tolerância também é de 2,5 pontos).
Segundo Zeina, "ainda que se confirme o esperado influxo cambial mais significativo nos próximos meses, não convém sequer se cogitar a volta do BC ao mercado". Diante do choque externo representado pelas commodities, é importante que o dólar caia, ou pelo menos que se mantenha nos atuais níveis, afirma ela. A moeda, que no começo do ano estava na casa de R$ 2,80, chegou a bater em R$ 3,19 em 31 de maio, mas depois a alta perdeu força. Ontem, o dólar fechou em R$ 3,038.
O economista Roberto Padovani, da Tendências Consultoria Integrada, também não vê espaço para o BC comprar dólares neste ano. Com o choque de oferta provocado pela alta das commodities e a meta de inflação mais ambiciosa para 2005, a autoridade monetária deve evitar pressionar o câmbio, afirma ele. Padovani aposta ainda que o BC vai diminuir a velocidade de redução da dívida atrelada ao dólar, como já fez nos últimos vencimentos. Na semana passada, por exemplo, o BC renovou 18,5% de um lote de US$ 1,5 bilhão de papéis cambiais, que vencem hoje.
O economista-chefe do Pátria Banco de Negócios, Luís Fernando Lopes, também diz que o BC não deve voltar tão cedo a adquirir a moeda americana. Para ele, o ideal seria que o dólar caísse abaixo de R$ 3, o que aliviaria pressões inflacionárias e tenderia a melhorar as expectativas do mercado quanto à trajetória dos índices de preços. O mais realista, porém, é esperar que a moeda fique nos atuais níveis, avalia Lopes.
Ele acredita que, para recompor as reservas - muito baixas se forem excluídos os recursos do Fundo Monetário Internacional (FMI) -, o governo vai recorrer a emissões no exterior. Neste ano, o país já captou US$ 3 bilhões no mercado internacional, faltando US$ 1 bilhão, de acordo com o cronograma oficial. As reservas líquidas estão na casa de US$ 22,7 bilhões. Captações externas são uma maneira de engordá-las sem pressionar o câmbio, afirma Lopes.

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