Gestão do Conhecimento
Redação TN Petróleo/Assessoria
O efeito é conhecido por qualquer gestor que já contratou um treinamento motivacional: dois ou três dias de energia, reuniões animadas e discursos sobre mudança. Na semana seguinte, tudo volta ao ponto de partida. Mirian Coden e Gilberto de Souza observaram esse ciclo repetido nas empresas brasileiras e decidiram trabalhar de outra forma. Em 2009, fundaram a Nortus com uma premissa simples: o comportamento só muda quando se ensina para o cérebro que aprende.
Dezesseis anos depois, a empresa acumula mais de 200 mil pessoas impactadas no Brasil e no exterior. O método que sustenta esse número tem nome: Tecnologia Comportamental Metassistêmica (TCM). A proposta é gerar mudança biológica no aprendizado, convertendo informação em memória de longo prazo e, por consequência, em comportamento real dentro das organizações.
O problema que ninguém queria admitir
A Nortus nasceu de uma constatação incômoda. Gilberto de Souza, especialista em liderança, e Mirian Coden, doutora em Educação e pesquisadora do desenvolvimento humano, identificaram o que chamaram de "decaimento do aprendizado": em 90 dias após qualquer treinamento tradicional, a maior parte dos participantes voltava aos comportamentos anteriores.
"O cérebro tem um ritmo próprio. Não adianta empurrar informação se a cultura da empresa não permite que o novo comportamento apareça", diz Mirian Coden. A solução que a Nortus construiu ao longo dos anos envolve três camadas: o indivíduo, a estrutura organizacional e a cultura. Nenhuma das três funciona sem as outras.
Hoje a equipe tem 36 profissionais, a maioria já sócia do negócio. A empresa aplica o próprio método internamente antes de levar qualquer solução para um cliente. O que os fundadores chamam de "entregar o saber e o sabor" é, na prática, a garantia de que nenhum conteúdo é ensinado sem ter sido vivido primeiro por quem o entrega.
O Brasil e o ranking das marcas mais valiosas do mundo
Um número incomoda Mirian Coden toda vez que ele aparece nas pesquisas internacionais: o Brasil tem apenas uma representante entre as 500 marcas mais valiosas do mundo, o Itaú Unibanco. Para ela, a explicação está na fragilidade das estruturas organizacionais que precisam sustentar o crescimento dessas empresas.
"Muitas organizações não dão o devido valor à estrutura organizacional. Mas ela é fundamental para a inovação e a longevidade. Quando a estrutura não sustenta o desenvolvimento das pessoas, a empresa encontra limites para competir globalmente", avalia a doutora. Na visão da Nortus, a estrutura vai além de organogramas. Ela envolve processos, cultura e liderança alinhada a um propósito de longo prazo.
Uma empresa sem cargos e reconhecida no mundo
A Nortus não apenas orienta empresas sobre modelos organizacionais. Ela os testa em si mesma. A empresa foi a primeira no mundo a implementar a OFCIAO, um desenho organizacional sem cargos fixos nem hierarquias de poder, em que o foco central é o desenvolvimento humano e não a posição ocupada por cada pessoa.
Essa escolha rendeu reconhecimento internacional. Recentemente, a Nortus soube que será citada como estudo de caso mundial no livro do Dr. Darrell Gooden, sucessor do renomado Dr. Don Edward Beck, como uma empresa de segunda camada no modelo SDi. Em 2019, a empresa já havia recebido autorização para representar o Centro para Humanidade Emergente no Brasil e na América Latina.
Tecnologia belga dentro da sala de reunião
Um dos recursos que a Nortus trouxe ao mercado brasileiro é o NeurotrainingLab, desenvolvido em parceria com o Dr. Steven Poelmans e a Universidade de Antuérpia, na Bélgica. Em interação de 30 minutos, o gestor enfrenta situações reais com atores e atrizes enquanto sensores registram suas respostas neurofisiológicas e duas observadoras acompanham cinco metacompetências de liderança registradas em um software específico. No total, entre a interação com atores e feedback, a sessão dura 1h 30min.
Ao final da sessão, o participante recebe um feedback que é coconstruído a partir das observações coletadas, de perguntas feitas pelas observadoras e reflexões compartilhadas pelo participante. Essa metodologia é baseada no "aprender fazendo", a partir da experiência vivida. Algumas semanas depois, recebe um relatório que detalha pontos que muitas vezes o próprio gestor desconhece sobre si mesmo. "Não é para julgar, é para desenvolver o potencial de auto-percepção, que chamamos de metacognição. Para que a pessoa identifique o que a impede de performar em sua maior potência", explicam os fundadores.
Em 2026, com a aceleração do trabalho híbrido e a pressão crescente sobre líderes para gerir equipes distribuídas sem perder desempenho, ferramentas como essa ganham relevância prática. Empresas que antes investiam apenas em cursos online começaram a buscar avaliações que conectem dados neurofisiológicos com o comportamento do gestor no trabalho.
Responsabilidade que começa dentro de casa
Além do trabalho com empresas, a Nortus mantém dois projetos sem fins lucrativos. O Neoeducar com foco no desenvolvimento de metacognição da gestão e desenvolvimento humano para escolas públicas. O Nortus Refloresta atua na regeneração ambiental.
"O nosso time aprende a transformar sua potência em realização pessoal e coletiva. Quando a pessoa se sente responsável por si, ela naturalmente cuida melhor do todo", diz Gilberto de Souza. É esse raciocínio que, segundo os fundadores, explica por que uma parte significativa dos clientes permanece com a empresa por mais de uma década.
Foco no que permanece
O mercado de treinamento corporativo no Brasil fatura bilhões de reais por ano e continua crescendo. A maior parte desse dinheiro ainda vai para formatos que entregam conteúdo sem garantir mudança de comportamento. A Nortus aposta no oposto: processos longos, acompanhamento continuado e ciência como base de cada decisão.
A estratégia inclui parcerias ativas na Espanha, em Portugal, na Bélgica e nos Estados Unidos, mas o foco operacional permanece nas empresas brasileiras que buscam competitividade de longo prazo. "Liderar no futuro não é só buscar o novo. É encontrar o que é essencial", sintetiza Mirian Coden.
Para uma empresa que nasceu questionando o modelo dominante de treinamento, a pergunta que move o trabalho continua sendo a mesma: o que precisa mudar, de verdade, para que as pessoas e as organizações avancem de forma saudável? Em 16 anos, a Nortus não respondeu essa pergunta com um curso. Respondeu com um método.
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Sobre a Dra. Mirian Coden: PhD em Educação, graduada em Filosofia e pós-graduanda em Neurociências pela PUCRS. Cofundadora da Nortus, criadora do modelo OFCIAO e conferencista internacional com mais de 25 anos de experiência em transformação organizacional.
Sobre Gilberto de Souza: Cofundador da Nortus, especialista em liderança e um dos principais responsáveis pelo modelo de autogestão e responsabilidade sistêmica que tornou a empresa referência mundial.
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