Artigo

A energia que o sistema não consegue absorver, por Lucas Genoso

Redação TN Petróleo/Assessoria 77Sol
11/09/2025 06:39
A energia que o sistema não consegue absorver, por Lucas Genoso Imagem: Divulgação Visualizações: 1571

A crescente relevância do termo curtailment no debate sobre energia no Brasil revela um paradoxo incômodo: o país avança na produção de energia limpa, mas ainda encontra dificuldades em aproveitá-la plenamente. O conceito, que se refere à redução forçada da geração elétrica quando há excesso de oferta ou limitação na capacidade da rede de escoamento, tem gerado distorções na interpretação de suas causas e consequências.

Na prática, o curtailment ocorre quando o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) identifica a necessidade de reduzir a geração em determinados pontos da rede para preservar a estabilidade do sistema. Isso afeta principalmente usinas conectadas às transmissoras em regiões onde a produção supera a demanda local — como é o caso do Nordeste, líder em geração solar e eólica. Em dezembro de 2024, os cortes na geração solar atingiram 8,2%, segundo levantamento da consultoria ePowerBay, apontando para um cenário em que a energia disponível não encontra caminho para ser distribuída de forma eficiente.

No entanto, é equivocada a tentativa de responsabilizar a geração distribuída, especialmente os sistemas de micro e minigeração, por esse fenômeno. Por estarem ligados diretamente às distribuidoras e atenderem consumidores locais, esses sistemas não enfrentam os mesmos desafios de escoamento e, por isso, não estão sujeitos aos mesmos mecanismos de controle. 

O que se observa é uma disfunção mais ampla: a expansão das fontes renováveis no Brasil — que alcançaram 93% da matriz elétrica em 2023 — não foi acompanhada pela necessária modernização da infraestrutura de transmissão. O resultado é um sistema que opera no limite, incapaz de absorver a energia que já somos capazes de produzir. A falta de planejamento, somada a entraves regulatórios, expõe gargalos estruturais que vão além da questão técnica.

A solução para o curtailment não está em restringir o avanço da geração descentralizada, mas em requalificar o sistema elétrico como um todo. Isso inclui investimentos em redes inteligentes, adoção de tecnologias de armazenamento, digitalização da operação e novas formas de controle da demanda. São iniciativas que, se implementadas de forma coordenada, podem reduzir desperdícios, aumentar a segurança energética e fortalecer o papel do Brasil como referência em energia limpa.

Vale lembrar que o setor elétrico brasileiro é altamente regulado, e decisões normativas podem afetar diretamente a viabilidade de investimentos, inclusive na geração distribuída. Por isso, é fundamental que as discussões sobre o futuro da energia estejam baseadas em dados, e não em premissas imprecisas ou disputas entre modelos de negócio.

O curtailment é sintoma de um sistema em transição, que precisa evoluir para acompanhar a própria capacidade de geração que ajudamos a construir. Se interpretado corretamente, pode ser um sinal de que é hora de priorizar a eficiência e a integração sistêmica, apoiando o desenvolvimento de soluções que visam contribuir para democratizar o acesso à energia limpa no país.

Sobre o autor: Lucas Genoso é CFO Da 77Sol, maior e mais completo ecossistema de energia solar brasileiro

Mais Lidas De Hoje
veja Também
Cobertura OTC
ANP participa de uma das maiores conferências do mundo s...
08/05/26
Firjan
Voto pela inconstitucionalidade da lei dos royalties é o...
08/05/26
Mão de Obra
Censo 2026 vai mapear perfil socioeconômico de trabalhad...
07/05/26
Internacional
ANP e PPSA realizam evento exclusivo em Houston para pro...
07/05/26
Workshop
ANP faz workshop para dinamizar a exploração de petróleo...
07/05/26
Parceria
Halliburton e Shape Digital firmam colaboração estratégi...
06/05/26
ROG.e
ROG.e 2026 reunirá CEOs de TotalEnergies, Galp, TGS e Ry...
06/05/26
Oportunidade
CNPU 2025: ANP convoca candidatos de nível superior a se...
06/05/26
Combustíveis
Atualização: Extensão do prazo de flexibilização excepci...
06/05/26
Gestão
ANP publica Relatório de Gestão 2025
06/05/26
Internacional
Na OTC Houston 2026, Firjan SENAI SESI expande atuação s...
06/05/26
Energia Elétrica
Modelo simplificado viabilizou 70% das migrações ao merc...
06/05/26
Investimentos
Biocombustíveis podem adicionar até R$ 403,2 bilhões ao PIB
05/05/26
Bacia de Santos
Acordos de Individualização da Produção (AIP) das Jazida...
05/05/26
Energia Solar
ENGIE investirá R$ 5 milhões em três projetos para inova...
05/05/26
Combustíveis
ETANOL/CEPEA: Média de abril é a mais baixa em quase doi...
05/05/26
Pessoas
Josiani Napolitano assume presidência da ABiogás em mome...
05/05/26
Internacional
Na OTC Houston 2026, Firjan SENAI realiza edição interna...
04/05/26
Reconhecimento
BRAVA Energia recebe prêmio máximo global do setor pelo ...
04/05/26
Internacional
Brasil reafirma protagonismo tecnológico na OTC Houston ...
04/05/26
Pré-Sal
PPSA encerra 2025 com lucro líquido de R$ 30,1 milhões
04/05/26
VEJA MAIS
Newsletter TN

Fale Conosco

Utilizamos cookies para garantir que você tenha a melhor experiência em nosso site. Se você continuar a usar este site, assumiremos que você concorda com a nossa política de privacidade, termos de uso e cookies.