Combustíveis

Incerteza trava mercado de biodiesel

Incertezas em relação ao crescimento da demanda e a gradual queda de preços nos últimos leilões de compra realizados pela Petrobras frearam o desenvolvimento do mercado brasileiro de biodiesel. Desestimuladas, empresas de óleos vegetais como Granol e Caramuru e a cooperativa paranaense Coca

Valor Econômico
04/08/2006 00:00
Visualizações: 948

A demanda ainda concentrada nas mãos da Petrobras e a queda dos preços praticados nos leilões de julho frearam o desenvolvimento do mercado de biodiesel no país e em grande medida desanimaram empresas de óleos vegetais que têm projetos de construção de usinas em andamento.

A paulista Granol, por exemplo, dilatou seu cronograma de investimentos na área. "Uma empresa ofereceu preços muito baixos no último leilão, o que nos desestimulou a produzir e comercializar o biodiesel", afirma Diego Ferrés, sócio-diretor da Granol. A empresa conclui em setembro uma usina em Cachoeira do Sul (RS), que produzirá 100 milhões de litros por ano - volume arrematado pela Petrobras nos leilões anteriores. Outra unidade com mesma capacidade, que seria implantada em março de 2007 em Anápolis (GO), fica engavetada. "O investimento dependerá do próximo leilão", diz.

Celso Carlos dos Santos Junior, superintendente comercial e industrial da Cocamar, cooperativa de Maringá, também diz-se "frustrado" com o resultado do último leilão. "Nossa idéia era entrar no negócio já em 2007, mas o preço do produto não é bom o suficiente para justificar investimentos. Agora estamos pensando só em 2008, perdemos a pressa", afirma.

Antonio Cesar Salibe, diretor executivo da União das Destilarias do Oeste Paulista (Udop), observa que as usinas associadas também têm projetos na área de biodiesel que se mantêm engavetados por conta da queda nos preços do produto ao longo dos leilões.

Cesar Borges de Sousa, vice-presidente da Caramuru, observa que o biodiesel é vendido para a Petrobras a preço fixo durante um ano e meio e concorre diretamente com o óleo de soja exportado, vendido a preços de mercado. "As indústrias têm que apostar em um câmbio, em uma previsão de preço internacional e fazer negociações financeiras que garantam, com a venda do biodiesel, a mesma rentabilidade da venda do óleo".

A Caramuru tem projeto para instalar uma usina em Itumbiara (GO), com capacidade para 110 milhões de litros por ano. No último leilão da Petrobras, arrematou a venda de 30 milhões de litros.

Até agora, as empresas que fecharam os menores lotes nos leilões da Petrobras foram as empresas que tradicionalmente atuam no setor - como Agropalma, Caramuru, Barrálcool, Granol. "Enquanto os preços são regulados por leilões, não se pode ter idéia de como vai ser esse mercado. Por isso as indústrias preferem manter o foco em seus mercados tradicionais", afirma Marcello Brito, diretor comercial da Agropalma.

Além do preço fixado, as indústrias reclamam a dificuldade de competir com as empresas que têm o selo social - no caso, as que produzem biodiesel a partir da mamona com agricultores familiares e têm redução tributária.

Arnoldo Campos, coordenador do Programa de Biodiesel pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário, reconhece que o projeto do governo federal procurou estimular a agricultura familiar.

Por isso, as indústrias instaladas no Nordeste ofertaram mais biodiesel e a preços mais baixos nos leilões. O preço médio do biodiesel caiu 8,3%, de R$ 1,91 para R$ 1,75. Segundo estudo do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq), o custo de produção do biodiesel varia de R$ 0,90 por litro a R$ 2,21, dependendo da matéria-prima e da região é produzido. Os custos mais altos concentram-se no Sudeste.

"O governo preferiu colocar um preço-teto confortável e deixar que as empresas definissem os preços. São as próprias indústrias que ofertaram a valores mais baixos", afirma Campos. Ele observa também que, em função do grande volume de investimentos na área, o governo estuda tornar obrigatória a mistura de 2% já em 2007 e a mistura de 5% para 2010. "Os projetos de usinas somam uma capacidade de quase 2 bilhões de litros. A resposta do setor produtivo foi muito mais intensa que o esperado pelo governo federal", diz Campos.

A capacidade produtiva acima do esperado ocorre principalmente no Nordeste. Nos quatro leilões realizados pela Petrobras, as empresas dessa região arremataram 318 milhões de litros, quando a demanda local é por 115 milhões. Campos diz que o custo para transportar o biodiesel do Nordeste para a região Centro-Sul será absorvido pela Petrobras. "Já sabíamos que isso aconteceria".

Outro fator de pressão para as indústrias de óleos tem sido o avanço da Petrobras na produção do H-Bio (uma mistura de 10% de óleo vegetal no diesel). A empresa fez adaptações em refinarias do Rio de Janeiro, Paraná e São Paulo para produzir 425 milhões de litros do produto em 2007. Sillas Oliva Filho, gerente de comércio de álcool e oxigenados da Petrobras, diz que a empresa também fará adaptações em refinarias de outros estados. "O H-Bio vai substituir o diesel. Não representa concorrência direta ao biodiesel."

 

Mais Lidas De Hoje
veja Também
Biometano
Necta destaca avanço do biometano em São Paulo durante a...
19/10/26
Fiscalização
ANP e Senacon fiscalizam mercado de combustíveis para co...
16/10/26
Energia Nuclear
Relatório global aponta que apoio à energia nuclear supe...
16/10/26
Pessoas
Presidente da ABiogás integra a lista "As 100 Mulheres P...
16/10/26
Resultado
Petrobras alcança R$ 800 bilhões em valor de mercado e r...
16/10/26
Bacia de Santos
Bacalhau completa primeiro ano de produção nos 25 anos d...
15/10/26
Firjan
Fim da escala 6x1: Firjan fará propostas que garantam se...
15/10/26
Bacia de Santos
Acordos de equalizações referentes às Jazidas Compartilh...
15/10/26
Logística
Benel investe R$ 45 milhões em novos transportes no prim...
14/10/26
Margem Equatorial
Governo do Amapá tem acordo formalizado com Transpetro e...
14/10/26
PD&I
Tereos amplia alcance de tecnologia própria para impulsi...
14/10/26
Investimento
ABPIP apresenta propostas ao Governo da Bahia para destr...
14/10/26
Biometano
ANP credencia B3 S.A. como entidade registradora de Cert...
14/10/26
Bacia de Pelotas
TGS retoma pesquisa sísmica na Bacia de Pelotas com foco...
13/10/26
Aviação
Avanço do combustível sustentável de aviação reforça imp...
13/10/26
Sustentabilidade
Vallourec Avança na Sustentabilidade com Tecnologia que ...
13/10/26
PD&I
ANP fará consulta e audiência públicas sobre credenciame...
09/10/26
Combustível
ANP retoma restrição à venda de biodiesel entre distribu...
09/10/26
Logística
Corredor Verde inicia operação e cria eixo de biometano ...
08/10/26
Pessoas
CEO da Necta assume presidência do Conselho do CIBiogás ...
08/10/26
Oferta Permanente
PPSA passa a gerir 36 contratos de partilha após resulta...
08/10/26
VEJA MAIS
Newsletter TN

Fale Conosco

Utilizamos cookies para garantir que você tenha a melhor experiência em nosso site. Se você continuar a usar este site, assumiremos que você concorda com a nossa política de privacidade, termos de uso e cookies.

25