Combustível

Empresas cobiçam fonte de energia do futuro na Bolívia

Valor Econômico
17/11/2008 03:27
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A 3.600 metros no nível do mar, numa remota região dos Andes, o governo da Bolívia tenta dar os primeiros passos para a exploração do mineral que pode se transformar no combustível do futuro e revolucionar a indústria automobilística. O mineral é o lítio e a região, o Salar de Uyuni, em Potosí, no sudoeste do país. O salar é um gigantesco deserto de sais que concentra as maiores reservas de lítio do mundo - 50,5% do total, segundo estimam autoridades americanas. 

 

Substância estratégica e rara, o lítio alimenta a indústria de telefones celulares, de laptops e de outros eletroeletrônicos servindo como elemento-chave das baterias. Além disso, é empregado na indústria química, metalúrgica, cerâmica em reatores nucleares.  Mas é a possibilidade de que venha a se tornar a matéria-prima de baterias de alto rendimento dos carros elétricos do futuro, em estudo por diversas montadoras, que faz com que a reserva seja cobiçada por empresas estrangeiras.

 


No ano passado, o presidente Evo Morales deu sinal verde para a construção de uma planta-piloto para produção de carbonato de lítio. A obra, orçada entre US$ 6 milhões e US$ 7 milhões, está em andamento. Além de dar início à fábrica, Morales também abriu as portas para negociações de possíveis parcerias com o capital privado para a industrialização do lítio em maior escala. Até agora, companhias de ao menos quatro países já procuraram La Paz para discutir futuras condições de investimento e de acesso à região, disse ao Valor na semana passada o diretor-geral do Ministério de Minería y Metalurgia da Bolívia, Freddy Beltran. 

 

“Pelo menos até a escala piloto, o projeto é estatal. Mas é possível que a fase industrial seja fruto de investimento misto. Mais de sete empresas já manifestaram interesse. Já tivemos várias reuniões e as que têm se mostrado mais interessadas são a Sumimoto e Mitsubishi (japonesas) e Bolloré (francesa)”, conta Beltrán, Segundo ele, empresas da Rússia e da Coréia do Sul também procuraram o governo. 

 

Por enquanto, as companhias dizem estar interessadas em participar da produção de carbonato de lítio (substância empregada nas baterias), mas Beltran tem dito que o governo quer parcerias que possibilitem a produção de derivados que necessitam de investimento e tecnologia, como o cloreto de lítio, o hidróxido de lítio ou o lítio metálico. Morales falou até de um dia o país ter sua própria fábrica de baterias de automóveis - o que seria um salto e tanto para o país mais pobre da América do Sul. 
O presidente boliviano tem motivos para tanta empolgação. “A demanda por lítio não vai dobrar; vai se multiplicar por cinco”, declarou recentemente o gerente-geral da Mitsubishi em La Paz, Eichi Maeyama. A empresa espera lançar em breve seu primeiro carro elétrico e estima que a demanda mundial pelo mineral ultrapasse a oferta em menos de dez anos se novas fontes de fornecimento não forem encontradas. “Vamos precisar de mais fontes de lítio e 50% das reservas de lítio do mundo estão na Bolívia”, lembra Maeyama. 

 

Assim como a montadora japonesa, a Mercedes tem testado uma versão elétrica do Smart. A BMW faz o mesmo com o Mini. GM e Toyota também trabalham em modelos que rodem com eletricidade. Em todos os casos, as baterias de lítio serão fundamentais. O lítio, mais do que a maioria de outros materiais, tem a faculdade de permitir que uma quantidade maior de energia seja armazenada em baterias mais leves e menores. O mineral é encontrado em rochas ou, no caso da Bolívia, em reservatórios de salmoura que se estendem abaixo do deserto de sal. 

 

As maiores reservas de lítio do mundo são, depois da Bolívia, o Chile (com 28%) e a China (10,3%), segundo o capítulo sobre lítio do Sumário Mineral de 2008, do Departamento Nacional de Produção Mineral, órgão do Ministério das Minas e Energia do Brasil. As informações são em parte baseadas no U. S. Geological Survey - Mineral Commodity Summaries de 2008. Estima-se que os EUA (3,8% das reservas) sejam o maior produtor e consumidor mundial. Depois vêm Chile, Austrália e China. Em 2007, o Brasil produziu 1,7% do total mundial, ou 25.160 toneladas. 

 

A Bolívia tentou entrar nesse mercado nos anos 90. Mas a negociação do governo com uma empresa americana foi bombardeada por movimentos sociais que diziam que o contrato negociado era lesivo ao país e não traria oportunidades à população, conta Beltran. O governo Morales aposta numa receita diferente. “As empresas sabem que não vamos dar o lítio de presente e que vamos procurar a industrialização”, diz ele. 

 

A Bolívia não tem sido um país atraente para investimentos, mas se a demanda pelo lítio crescer de acordo com o esperado, aumentam as chances de que o capital privado relegue inseguranças jurídicas e políticas para ter acesso à reserva. Em editorial recente, o jornal “El Razón” cita estudo de William Tahil, do Meridian International Research, que diz que apesar dos desafios, “a Bolívia pode virar a nova Arábia Saudita do mundo”.

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