Preços

Aumento de combustíveis ameaça cumprimento da meta de inflação

Valor Econômico
23/08/2004 00:00
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O comportamento das cotações do petróleo é hoje a principal ameaça inflacionária que paira sobre a economia brasileira, com impactos que talvez não se restrinjam à trajetória dos preços em 2004. Um novo aumento dos combustíveis tenderia a levar a inflação deste ano para um nível próximo de 8%, o teto da meta definida para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) neste ano, de 5,5%, com tolerância de 2,5 pontos percentuais. Se um eventual reajuste da gasolina contaminar outros preços e provocar uma piora nas expectativas de inflação do mercado para 2005, cresce possibilidade de que o Banco Central (BC) eleve a taxa Selic dos atuais 16% ao ano. Mas, por enquanto, maior parte dos analistas ainda trabalha com juros estáveis até dezembro.
Um aumento de 10% da gasolina para o consumidor provoca um aumento de 0,4 ponto percentual no IPCA, o índice oficial do regime de metas inflacionárias, como diz o economista Fábio Akira, do banco JP Morgan. Akira projeta IPCA de 7,6% neste ano, previsão que embute uma nova alta de 5% a 6% do combustível na bomba. Se houver uma alta maior do que essa, o índice tenderia a ficar próximo dos 8%, afirma ele.
Para Akira, esse cenário não leva necessariamente a um aumento dos juros por parte do BC. "Estamos vivendo um típico choque de oferta", afirma ele. Akira lembra que a autoridade monetária não costuma combater o impacto direto de um choque como esse, atuando apenas para impedir que o reajuste se dissemine sobre outros preços da economia. O mais provável, para ele, é que os juros fiquem em 16% até o fim do ano.
O economista-chefe da Unibanco Asset Management (UAM), Alexandre Mathias, teme justamente que um novo aumento dos combustíveis provoque reajustes em outros preços. Outro risco, afirma, é de que os analistas revisem para cima as estimativas para o IPCA de 2005. O consenso do mercado aponta para uma inflação de 5,5% no ano que vem, acima do centro da meta, de 4,5%, que também conta com margem de 2,5 pontos.
A questão é que o BC, como lembra Mathias, tem mostrado preocupação com a piora das expectativas de inflação nas atas recentes do Comitê de Política Monetária (Copom). Uma deterioração adicional dessas previsões, combinada com alta dos preços correntes, poderia levar o BC a elevar os juros, acredita ele, que prevê um IPCA de 7,3% neste ano e de 5,4% para o ano que vem. As duas previsões não incluem reajuste de combustíveis.
O Departamento Econômico do Bradesco fez uma simulação detalhada sobre os impactos de eventuais aumentos dos preços dos derivados do petróleo sobre os índices gerais de preços (IGPs) e o IPCA. Os cálculos foram feitos com base num valor de US$ 49 o barril para o produto negociado em Nova York.
O impacto final sobre o IPCA tenderia a ser de 0,28 ponto percentual, estima o Bradesco, considerando um reajuste da gasolina de 12% na refinaria e de 6,6% ao consumidor. Com isso, o IPCA projetado pelo mercado subiria de 7,16% para 7,44%. Já os IGPs aumentariam de 11,3% para 12,54%, incluindo o efeito da elevação das cotações no atacado e no varejo.
O aumento do IGP é um problema porque provocaria uma pressão adicional sobre a inflação do ano que vem, já que boa parte dos preços administrados, como tarifas de energia elétrica e telecomunicações, são corrigidos por esse índice. Com isso, os preços administrados deverão subir em 2005 mais 0,58 ponto além dos 8,28% já previstos. No fim das contas, o impacto sobre o IPCA será de mais 0,17 ponto no ano que vem, projetam os analistas.
O impacto de uma alta dos combustíveis sobre os preços em 2004 e 2005 não será dos mais tranqüilos, reconhecem economistas. Eles frisam que a reação da política monetária vai depender de como o BC vai encarar esse choque. O economista Jankiel Santos, do ABN AMRO, acredita que a instituição vai combater apenas os efeitos secundários sobre os outros preços. "Mas um reajuste dos combustíveis aumenta a possibilidade de o BC ser ainda mais conservador."

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