Internacional

Vizinhos do Golfo também buscam energia nuclear

Valor Online
26/07/2010 09:28
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Potências petrolíferas, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos (EAU) entraram na corrida para obter acesso à energia nuclear. Entretanto, num nítido contraste com o Irã, outro país na região, é improvável que as suas ambições nucleares venham a preocupar o Ocidente.
 

Os planos dos dois países árabes vêm à tona num momento em que estão sendo ampliadas as sanções contra o Irã, um membro da Opep (cartel internacional de produtores de petróleo), à medida que a comunidade internacional tenta obrigar os iranianos a conterem suas atividades nucleares. Hoje, a União Europeia (UE) deverá adotar o mais recente conjunto de medidas restritivas contra o país.
 

Ninguém contesta que o Irã, como outros produtores de petróleo no Oriente Médio, tem necessidade urgente de mais fontes de geração de energia para atender a crescente demanda doméstica. O problema é a suspeita de que Teerã esteja no caminho da construção de uma bomba nuclear, ao passo que, no caso da Arábia Saudita e dos EAU, a percepção é de que apenas desejam acesso a energia para fins pacíficos.
 

"Não estamos preocupados com que esses países [Arábia Saudita e EAU] desenvolvam energia nuclear convencional", disse Luis Echavarri, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). "É algo que cada país tem o direito a ter. Todo mundo deveria beneficiar-se dessa energia. Isso é mais difícil para alguns países do que para outros, mas, conceitualmente, a energia nuclear está disponível a todos."
 

Em relatório neste mês, a Wood Mackenzie, uma consultoria de energia, diz que o nível de demanda energética na Península Arábica poderá aumentar em 85% até 2030, em comparação com o consumo em 2008.
 

Até que outras fontes de energia, como a nuclear, possam ser exploradas, uma escassez de gás no Golfo Pérsico significará que grande parte do crescimento da demanda será satisfeito queimando petróleo, o que poderia abater cerca de 1,5 milhão de barris equivalentes de petróleo por dia da oferta nos mercados mundiais.
 

Os EAU têm planos nucleares bastante avançados, e uma concorrência concluída no fim ano passado teve como vencedor um grupo sul-coreano que construirá e operará quatro reatores nucleares. Analistas referem-se ao "modelo de Abu Dhabi", segundo o qual o emirado está construindo usinas nucleares, mas se comprometeu a não enriquecer urânio e a não reprocessar o combustível consumido.
 

Em 2008, a Arábia Saudita também assinou um acordo de cooperação nuclear com os EUA, embora possa não estar tão dispostas quanto os EAU a abrir mão do direito de enriquecer suas reservas de urânio.
 

"Para a Arábia Saudita, o processo de enriquecimento é uma opção estratégica", disse Nicole Stracke, do Gulf Research Center. "A opção por desenvolver um ciclo nuclear completo equivaleria a enviar uma mensagem clara ao Irã, bem como à comunidade internacional, de que não impedir que o Irã adquira uma capacidade nuclear produzirá um impacto em toda a região e no sistema de não proliferação."
 
 
Mas a Arábia Saudita está longe de dominar um ciclo nuclear completo e a maioria dos analistas diz que o país continuará a buscar o apoio de seu aliado, os EUA, caso em algum momento sentir que precisa do respaldo de um arsenal nuclear.
 

"Os recursos de urânio da Arábia Saudita e a capacidade de minerá-los são, na melhor das hipóteses, especulativos", disse Anthony Cordesman, analista do Centro para Estudos Internacionais e Estratégicos (CSIS, na sigla em inglês), de Washington. "Também é muito duvidoso que a Arábia Saudita possa realizar esse enriquecimento sem pelo menos duplicar, e talvez quadruplicar, seus custos de obtenção de combustível nuclear."
 

Os custos de desenvolvimento da energia nuclear são sempre um problema. Embora relativamente baixo, abundante e confiável após a construção de usinas, os custos de capital iniciais são enormes. Uma regra prática no setor tem sido a de que a energia nuclear é uma opção viável quando o petróleo custa US$ 90 o barril, acima dos preços atuais em torno de US$ 76 do petróleo. Para os países produtores ricos em petróleo no Golfo, ansiosos por liberar o máximo de petróleo para exportação possível em vez de queimá-lo para produzir eletricidade, essa consideração é acadêmica.
 
 
Ainda assim, alguns poderão primeiro dar atenção à opção mais óbvia para os reinos no deserto: a energia de fonte solar, mais cara do que a nuclear, mas que poderia ser dominada mais rapidamente. A Arábia Saudita não está descartando nenhuma opção e tem planos ambiciosos para desenvolver todo tipo de energias, além do petróleo.
 

"Da mesma forma que somos exportadores de petróleo, também podemos ser um país exportador de eletricidade", disse em setembro o ministro saudita do Petróleo, Ali al-Naimi.
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