Mercado

Maior geradora de energia do Japão tem futuro incerto

Valor Econômico
18/03/2011 09:44
Visualizações: 1464
Em irado confronto com executivos da Tokyo Electric Power (Tepco), na quarta-feira, Naoto Kan, o primeiro-ministro do Japão, exigiu saber "que diabo está acontecendo" na usina nuclear de eletricidade Fukushima Daiichi. Ele também lançou uma advertência: "Se vocês abandonarem a usina, eu garanto o colapso da Tepco".


A Tepco não entregou os pontos em sua desesperada luta para resfriar reatores aquecidos e tanques de combustível consumido na usina, que estavam emitindo níveis cada vez mais perigosos de radiação na quinta-feira, seis dias após um terremoto de magnitude 9 na escala Richter e do tsunami.


Mas, mesmo que consiga colocar a emergência sob controle, o futuro da Tepco parece sombrio.


No curto prazo, a companhia de eletricidade enfrenta graves dificuldades manter as luzes acesas em Tóquio e nas oito prefeituras que atende - uma área economicamente crucial de 44 milhões de pessoas que consome um terço da eletricidade no Japão.


O terremoto não só tirou de operação 10 dos 14 reatores nucleares operacionais da Tepco - seis em Fukushima Daiichi e outros quatro na usina Daini, menos crítica, nas imediações -como também comprometeu usinas a carvão, petróleo e gás responsáveis por 7 milhões de kW de potência, ou cerca de 20% da capacidade de geração térmica da Tepco.


Um rodízio de cortes de energia e pedidos do governo para que eletricidade seja poupada reduziram o consumo em cerca de 25% da média de 41 milhões de kW típica nesta época do ano. Mas a Tepco está em dificuldades para enfrentar a situação: a oferta mal cobria a demanda, na quinta-feira, o que fez a Tepco alertar sobre possíveis apagões descontrolados em Tóquio.


"Eles estão diante de um grave dilema", diz Tetsunari Iida, diretor executivo do Instituto para Políticas de Energia Sustentável, um instituto de pesquisas. Ele acusa a Tepco e agências reguladoras de assumir uma abordagem bitolada na em relação à energia nuclear.


Na esfera financeira, a Tepco enfrenta problemas ainda mais difíceis. Mesmo numa cultura japonesa relativamente não litigiosa, a companhia será processada. Mais pesada será a conta dos reparos e dos combustíveis fósseis adicionais necessários para compensar o déficit nuclear.


Quando sete reatores da Tepco na usina nuclear Kashiwazaki-Kariya foram parados devido a um terremoto em 2007, a companhia teve de arcar com 600 bilhões de ienes em custos com reparos e com combustível convencional - naquele ano foi mais de 10% das receitas -, fazendo-a registrar seu primeiro prejuízo líquido desde a crise energética dos anos 70.


A usina Fukushima Daiichi é um ativo a ser zerado e, seja como for, provavelmente permanecerá perigosamente radioativo por longo tempo. A extensão dos danos na usina Daini não é clara. Mesmo reparável, as perspectivas para uma retomada de sua operação são poucas: o primeiro reator de Kashiwazaki-Kariya só voltou a operar 2,5 anos depois e 3 dos 7 ainda aguardam aprovação para voltar a operar - permissão que poderá não ser concedida.


A reputação da própria Tepco também está no fundo do poço e poderá não se recuperar. A companhia já vinha enfrentando problemas de confiança, após vários escândalos e acidentes: a usina Kashiwazaki-Kariya foi projetada para absorver choques sísmicos mais fracos do que seria necessário suportar em sua área geológica, e a usina vazou radiação no terremoto de 2007. Em 2003, a fiscalização fechou todos os seus reatores durante um mês, após a descoberta de fraudes em relatórios de segurança. Apesar da bravura dos 300 técnicos da usina Daiichi, especialmente dos "50 de Fukushima" que permaneceram em seus postos após uma evacuação de todos os demais técnicos - a administração da Tepco foi criticada pela maneira como se conduziu durante a emergência.


O governo e a agência fiscalizadora também terão de responder à sua quota de perguntas. Katsunobu Oanda, um jornalista que escreveu um livro sobre a Tepco, diz existir uma relação perigosamente íntima entre a companhia de eletricidade e a fiscalização estatal. "Os fiscais e os fiscalizados são velhos colegas", diz ele.


Os dois lados do que Oanda denomina "máfia nuclear japonesa" são motivados pelo desejo de defender a energia atômica contra seus críticos. O resultado, diz ele, tem sido uma cultura corporativa fechada e defensiva.


A questão, para a Tepco é se poderá sobreviver intacta a essa crise. A companhia tem o balanço patrimonial mais frágil no setor elétrico em todo o mundo, com uma relação de dívida sobre capital de 228%, no fim de dezembro, ou seja, o dobro da média no setor.


Os possíveis cenários são falência, estatização ou desmembramento de sua operação nuclear - ou, simultaneamente, as três alternativas.
Mais Lidas De Hoje
veja Também
Margem Equatorial
ANP aprova delimitação de 11 novos setores exploratórios...
02/10/26
Agronegócio
Agro diversifica matriz energética e busca alternativas ...
02/10/26
Firjan
Manifesto Firjan defende o voto consciente em 4 de outubro
02/10/26
PPSA
ExxonMobil e TotalEnergies vencem o 9º Leilão Spot de Pe...
02/10/26
Workshop
Petrobras, Shell, ArcelorMittal e IBRAM discutem desafio...
01/10/26
Resultado
Produção de petróleo e gás em agosto de 2026 alcançou 6,...
01/10/26
Normas
ANP recebe contribuições sobre revisão da norma para reg...
01/10/26
ROG.e 2026
Petrobras e Petronect levam nova solução para compras de...
30/09/26
Premiação
Mirante Tecnologia vence prêmio da Petrobras de melhor f...
30/09/26
ROG.e 2026
Empresa Piracicaba apresentou lançamentos em um dos prin...
30/09/26
Combustíveis
Diesel S-10 acumula alta de 15,1% em 12 meses, aponta Mo...
30/09/26
Segurança + IA
CTO da Oakmont é um dos representantes brasileiros no en...
29/09/26
Gás Natural
ANP realiza 2° Workshop para debater Gas Release
29/09/26
Sustentabilidade
Prêmio Firjan de Sustentabilidade: conheça as empresas e...
29/09/26
Etanol de milho
Produtores de etanol de cana investem em usinas híbridas...
29/09/26
ANP
Royalties: valores referentes à produção de julho foram ...
29/09/26
ROG.e 2026
Oil States destaca integração entre engenharia, fabricaç...
28/09/26
Brandend Content
Brasil Aços amplia estoque de tubos de aço carbono NACE...
28/09/26
ROG.e 2026
Vencedor do RSE Award e destaque na ROG.e, o Programa de...
28/09/26
ROG.e 2026
Empresários do Norte Fluminense prospectam negócios na R...
25/09/26
ROG.e 2026
ANP participou de mais de 40 palestras em evento que reú...
25/09/26
VEJA MAIS
Newsletter TN

Fale Conosco

Utilizamos cookies para garantir que você tenha a melhor experiência em nosso site. Se você continuar a usar este site, assumiremos que você concorda com a nossa política de privacidade, termos de uso e cookies.

25