Energia elétrica

Falta de energia ameaça crescimento de Santos

Valor Econômico
01/11/2005 00:00
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Um sinal amarelo está piscando na área do fornecimento de energia elétrica para o porto de Santos. O aumento das operações no porto, que tem crescido, nesta década, a taxas superiores a 11% ao ano, provoca uma demanda de energia que está no limite do atendimento da Codesp.

Esse aumento tem sido provocado por todos os segmentos, mas, em particular, pela movimentação de contêineres, que utilizam guindastes especiais movidos a energia elétrica. A movimentação de contêineres cresce a cerca de 20% ao ano (em 2004 foram mais de 1,2 milhão de unidades). Outra operação que puxa o consumo de energia são os contêineres-frigoríficos, que cresceram em volume com o aumento das exportações de carnes.

A Codesp, única doca estatal no país a contar com hidrelétrica própria, com capacidade de geração de 15 megawatts (MW), está no limite de sua capacidade e já compra energia da usina de Piratininga. A usina da Codesp é alimentada pelo rio Itatinga, que desce da Serra do Mar para o litoral paulista e sofre o efeito das secas. Já a compra de energia de terceiros tem limitações estruturais.

O maior terminal de contêineres do porto, pertencente à Santos Brasil, já sofre com a escassez de energia elétrica. "Temos uma demanda de 7 MW, mas a Codesp só está fornecendo 4,3 MW. O restante suprimos com geradores a diesel. O custo do aluguel do equipamento e do óleo dobra o valor da energia e gastamos em torno de R$ 200 mil por mês", diz Antonio Carlos Sepúlveda, diretor executivo do consórcio Santos Brasil.

O executivo acrescenta que a demanda dos contêineres-frigoríficos, ligados a tomadas no solo dos pátios, caiu devido à febre aftosa. Mesmo assim, 80% do consumo total de energia do terminal é referente aos contêineres-frigoríficos.

A Santos Brasil já comunicou à Codesp que precisará de pelo menos 6 MW em 2006 e 13 MW, em 2007. Outros pedidos, como o da Libra Terminais, também já foram enviados à estatal. "De fato, os contêineres-frigoríficos estão aumentando", diz Marcelo Machado, gerente de manutenção dos terminais da Libra.

Cabe à estatal repassar para os terminais a energia, seja de sua própria geração ou adquirida de uma concessionária. Os valores cobrados pela Codesp não são reajustados há sete anos, mesmo assim, suas receitas têm crescido. De R$ 21,2 milhões em 2003, subiram para R$ 25,2 milhões em 2004. Em 2005, até outubro, o faturamento cresceu 8%, para R$ 22,9 milhões.

A Codesp paga à sua fornecedora uma tarifa variável, que vai de R$ 108,78 por MWh a R$ 919,95, dependendo do período do ano. Ela cobra dos grandes usuários o equivalente a R$ 250 por MWh, mas já foi avisada de que a CPFL foi autorizada a reajustar sua energia, de forma não-linear, entre 6% e 7%. "Há alguns anos, o preço da Codesp era caríssimo. Hoje está mais ajustado ao mercado", diz Walter Galvão, gerente de manutenção de infra-estrutura da estatal.

Mas a falta de infra-estrutura para viabilizar o fornecimento da concessionária pode levar a Codesp a perder dinheiro. O exemplo mais significativo é o do Terminal de Granéis de Guarujá (TGG), que deve começar a operar, em plena capacidade, em 2007. "A Codesp não tem condições de atender à nossa atual demanda, incluindo as obras do TGG e a operação do Terminal de Granéis de Guarujá (Termag). Nossa saída é comprar energia de fora, o que faremos dentro de 40 dias", diz Washington Flores, superintendente do TGG. A demanda de energia prevista para os dois terminais é de 10 MW e será fornecida pela Elektro.

Dentre todos os terminais que arrendaram áreas em Santos, os únicos que podem comprar energia fora da Codesp, diretamente, são os vinculados à Ferronorte, do consórcio Brasil Ferrovias. Os demais dependem do cabeamento e equipamentos da estatal para serem supridos. "O preço final é mais baixo do que se cada terminal comprasse a energia de forma isolada", assegura Galvão.

Ainda assim, Galvão faz queixas sobre o comportamento dos terminais que não informam à Codesp, com a devida antecedência, suas necessidades de energia. Além disso, o porto tem um acúmulo da chamada energia reativa, que é consumida mas não gera trabalho e sobrecarrega o sistema. "É como se fosse uma sujeira nas linhas, o que compromete a qualidade do fornecimento", explica.

Para amenizar esse efeito, a Codesp está recorrendo à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) pedindo autorização para cobrar do usuário o excesso de consumo não previsto e que não atende às normas técnicas em vigor. "Se não consertarmos essa distorção, poderemos pagar multa de até R$ 2 milhões em 2006", prevê Galvão. Para garantir a demanda de 2004, a Codesp pagou R$ 5,3 milhões à CPFL. Até setembro de 2005, os dispêndios foram de R$ 4,8 milhões.

A imprecisão da demanda dos terminais pode atrapalhar o futuro do fornecimento para todo o porto. Atualmente, Piratininga fornece até 8 MW. A Codesp pediu para a usina elevar o fornecimento para 14 MW, mas ela respondeu que só pode aumentar em 1 MW. O diretor comercial da Piratininga, Mauro Magalhães Vieira, disse que tem disponibilidade de energia para atender ao porto, mas que essa operação depende dos investimentos internos da Codesp. "De nossa parte, não há impedimento", disse.

A Codesp tem um plano total de investimentos de R$ 1,7 milhões para melhorar a infra-estrutura da parte elétrica. Galvão diz que em outubro e novembro a vazão do rio Itatinga é plena e assim há mais garantia de geração de energia própria. Para meados de 2006, com a seca, há um horizonte problemático. "Esperamos dar conta da demanda, com os entendimentos mantidos com a Piratininga", diz o gerente.

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