Combustíveis

Estoque elevado faz preço do etanol cair em plena entressafra

Valor Econômico
24/01/2012 10:34
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Com uma demanda por etanol 30% menor do que há um ano, as usinas do Centro-Sul iniciaram 2012 com os estoques cheios do biocombustível - tanto de anidro, que é misturado à gasolina, quanto de hidratado, que abastece diretamente os veículos. O resultado é que em vez de subir, como usualmente ocorre na entressafra, o preço do biocombustível na indústria está caindo vertiginosamente. Somente na semana passada, o recuo foi de mais de 6%. Mas, por enquanto, pouco dessa queda chegou ao consumidor final.

A estimativa do mercado é de que em 1º de janeiro havia em estoque no país 5,7 bilhões de litros (2,7 bilhões de litros de anidro e 3 bilhões de litros de hidratado). Se forem considerados os volumes de etanol importado que estão prestes a desembarcar nas próximas semanas, o número sobe em mais 200 milhões de litros.

"Os estoques estão semelhantes aos registrados em janeiro de 2011. A diferença é que naquela época o consumo mensal era de 2,1 bilhões de litros e agora está, no máximo, em 1,4 bilhão", diz o diretor-técnico da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica), Antônio de Pádua Rodrigues.

Durante 2011, os preços elevados do hidratado inibiram a demanda dos motoristas brasileiros, que migraram para a gasolina. E, em outubro o governo federal reduziu de 25% para 20% a mistura do anidro na gasolina, o que significará até o fim desta safra, em 31 de março, uma demanda 1 bilhão de litros menor.

O resultado é que os preços estão caindo e continuam com viés de baixa. Na semana passada, o indicador Esalq/BM&F para o etanol hidratado acumulou queda de 6,08% a R$ R$ 1.172 o m³. O anidro também caiu.

Nos postos, essa redução ainda não chegou, pelo menos não na mesma velocidade. Segundo levantamento divulgado ontem (23) pela Agência Nacional de Petróleo (ANP), o preço do hidratado permaneceu praticamente estável na maior parte dos estados brasileiros entre 14 e 21 de janeiro. Apenas no estado de São Paulo houve redução mais significativa. O preço nos postos paulistas foi, em média, de R$ 1,887 o litro, 1,20% menor do que na semana anterior.

Mas isso não significa, ainda, que já compense ao motorista, do ponto de vista econômico, trocar a gasolina pelo etanol. Isso porque o preço do litro do biocombustível nos postos equivaleu, na semana passada, a 71,39% do valor da gasolina. Em média, é considerado vantajoso ao consumidor final abastecer com etanol quando este custa, no máximo, 70% do preço do combustível fóssil.

No Brasil, a relação é mais vantajosa no Estado de Goiás (70,17%). Mas, na capital paulista, a forte concorrência entre postos, está fazendo o menor preço na usina ser repassado mais rapidamente ao consumidor. Por isso, essa relação atingiu semana passada 69,68%.

O presidente-executivo do sindicato que representa as distribuidoras de combustíveis do país (Sindicom), Alísio Mendes Vaz, explica que esse ritmo mais lento de repasse de preços ao consumidor final se explica pelo próprio consumo menor de etanol. "O preço está há muito tempo desvantajoso e a demanda muito retraída. Assim, os postos não vendem etanol, logo não precisam repor estoques. O produto não está andando ao longo da cadeia", afirma.

O diretor-executivo da entidade que representa as usinas do Centro-Sul (Unica), Antônio de Pádua Rodrigues, contesta. "Há um giro mensal de 700 milhões de litros. Dá para baixar mais", diz.

A questão é que agora a indústria produtora de etanol tem que desovar esse estoque até o início da próxima safra, em 70 dias. De acordo com Martinho Seiiti Ono, presidente de uma das maiores comercializadoras de etanol do país, a SCA Trading, o movimento de transformar estoques de anidro em hidratado (adição de água) já começou em janeiro, em pequena escala, mas deve se intensificar.

O diretor da Unica vê risco de faltar anidro para misturar na gasolina até abril, caso as distribuidoras não contratem antecipadamente o volume que vão misturar nesta safra. "O anidro existe, mas se não for vendido, será transformado em hidratado. Depois a usina é que vai 'pagar a conta' de novo se faltar produto", reclama Pádua.
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