Combustíveis

Déficit comercial fica 90% maior até junho

Valor Econômico
23/08/2004 00:00
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O déficit da balança comercial brasileira de petróleo e derivados praticamente duplicou no primeiro semestre do ano. O rombo chegou a US$ 2,28 bilhões no período, resultado de importações de US$ 4,95 bilhões e exportações de US$ 2,68 bilhões. Isso significa aumento de 90% do déficit em relação aos US$ 1,2 bilhão registrados de janeiro a junho de 2003, conforme cálculos da MS Consult, elaborados com base nos dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex).
As importações de petróleo bruto dispararam. Foram US$ 3,15 bilhões no primeiro semestre, com alta de 77% em relação ao mesmo período de 2003. E o ritmo continuou forte em julho. Segundo a Secex, as compras aumentaram 83% nos primeiros sete meses, para US$ 3,76 bilhões. Com esse aumento, o peso do complexo petróleo e derivados na pauta de importação deve saltar de 15%, em 2003, para 17% neste ano. Com base nos dados do primeiro semestre, a MS Consult prevê importações de US$ 9,99 bilhões no ano, com déficit de US$ 4,26 bilhões. A MB Associados projeta US$ 9,46 bilhões.
O impacto do petróleo nas contas externas, porém, deve ser pequeno, graças ao forte crescimento das exportações brasileiras. Segundo a MB, o déficit do petróleo pode chegar a US$ 3,95 bilhões esse ano, pouco ante o superávit previsto de US$ 28 bilhões da balança. A relevância do petróleo era bem maior em 2001, quando o déficit do setor foi de US$ 3,88 bilhões para um saldo total de apenas US$ 2,6 bilhões.
"É possível importar mais petróleo, apesar dos preços altos, porque há outros setores que financiam as contas", avalia Fábio Silveira, da MS Consult. Segundo a consultoria, o agronegócio deve fechar o ano com saldo de US$ 26,35 bilhões. Bens de consumo e bens intermediários podem atingir, respectivamente, superávits de US$ 9,45 e US$ 3,9 bilhões. Já o déficit de bens de capital deve ficar em US$ 6,9 bilhões.
Boa parte dessa explosão nas importações é resultado de aumento da quantidade importada e não tanto desse aumento de preço mais recente. O volume do produto adquirido no exterior cresceu 52,4% no primeiro semestre, enquanto os preços subiram 18,1%. Em junho, o Brasil já pagava US$ 39,7 por barril importado.
Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infra-estrutura (CBIE), explica que a expressiva elevação das importações é conseqüência da queda da produção da Petrobras. Por conta da paralisação de algumas plataformas para manutenção, a estatal reduziu em 5% sua produção no primeiro semestre do ano.
"A queda de produção foi ainda maior no segundo trimestre, período em que o petróleo atingiu altos patamares", comenta Pires. A produção de petróleo da Petrobras caiu 9% no segundo trimestre em relação ao mesmo período do ano anterior. A companhia preferiu importar petróleo bruto ao invés de derivados, por conta do menor valor agregado e para garantir escala em suas refinarias.
Em dólares, o aumento do déficit da balança da Petrobras também é visível. A companhia aumentou em 73% os gastos com importações, que cresceram cerca de US$ 800 milhões entre o primeiro semestre de 2004 e 2003. Entre um e outro semestre, o desembolso aumentou de US$ 1,08 bilhão para US$ 1,87 bilhão, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo manipulados pelo CBIE.
Já na comparação do mesmo período de 2003 com 2002, houve redução de 26% nos gastos, resultado de exportações maiores e importações menores. A Petrobras informa que, além da queda de produção, teve que aumentar as importações devido ao crescimento da demanda interna.
O déficit da estatal com o mercado exterior aumentou 300% no primeiro semestre ante o mesmo período do ano anterior, saltando de US$ 189 milhões para US$ 757 milhões. Segundo a Secex, a Petrobras importou US$ 2,95 bilhões e exportou US$ 2,19 bilhões de janeiro a junho de 2004.
Piora a situação o fato de a empresa importar petróleo refinado e exportar petróleo pesado, que é mais barato. Enquanto as importações brasileiras de petróleo atingiram preço médio de US$ 35,1 por barril no primeiro semestre, as exportações do país obtiveram apenas US$ 25,4.
Mas é exatamente por conta desse diferencial de qualidade que as exportações brasileiras até aumentaram, apesar da queda na produção da Petrobras. O país não necessita de todo o petróleo bruto extraído pela estatal. A receita obtida com exportação de petróleo no primeiro semestre aumentou 30,4% ante o mesmo período do ano anterior, para US$ 1,29 bilhão. Em volume, a alta foi de 14,9%, enquanto o preço subiu 13,5%.
Já a exportação de derivados terminou empatada no mesmo período, em US$ 1,38 bilhão, com alta de 5,6% em volume e queda de 5,3% no preço. Os embarques de gasolina caíram 19%.
"As exportações de derivados estão mais lentas, porque parte está sendo direcionada para o mercado interno por conta do crescimento da economia", avalia Glauco Carvalho, economista da MB Associados.

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