Empresas

Angra assume gestão das térmicas do grupo Bertin

Valor Econômico
01/11/2011 09:52
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Sem crédito na praça para financiar seus projetos de energia, com a imagem chamuscada pelos constantes atrasos na entrega de suas usinas termelétricas e ainda com fama de "atrapalhados" para fazer negócios no setor, os irmãos Bertin decidiram dar sua cartada decisiva e terceirizar a gestão do Bertin Energia, onde já aplicaram, em recursos próprios, R$ 1,2 bilhão. Os executivos da Angra Partners, com reestruturações bem-sucedidas de empresas como Santelisa Vale e Brasil Telecom em seus currículos, assumiram a administração com "total autonomia" para vender os ativos, buscar sócios e estruturar financiamentos.

A decisão estratégica, segundo Fernando Bertin, em sua primeira entrevista desde que o grupo passou a enfrentar dificuldades no setor, é vender 1.500 MW, além dos 650 MW já alienados à MPX, e permanecer com 4 mil MW. A expectativa é levantar R$ 750 milhões com a venda. "A Angra terá total autonomia", disse Fernando.

O Bertin é dono de três dezenas de concessões de termelétricas que juntas serão capazes de gerar cerca de seis mil MW, que a tornariam uma das maiores geradoras privadas do país, passando empresas como CPFL ou Neoenergia e encostando na Tractebel. Todas essas térmicas requerem investimentos de cerca de R$ 10 bilhões no curto prazo e essa se tornou uma das grandes dificuldades.

O novo presidente do Bertin Energia, Ricardo Knoepfelmacher, da Angra Partners, diz que a partir de agora o banco Credit Suisse será o único a receber qualquer tipo de proposta pelas térmicas da empresa e os interessados terão apenas três meses para fazer estudos e dar seus lances. O executivo diz que a reestruturação precisa ser feita rapidamente para que a taxa de retorno não seja ainda mais comprometida, tanto para possíveis novos sócios ou compradores potenciais, como para o Bertin.

Além da presidência, a Angra assume as vice-presidências financeira e de operações. O contrato é de três anos e a missão é criar um choque de credibilidade com aos bancos. "O conselho de administração ainda tem a palavra final, mas temos, por contrato, autonomia", diz Ricardo K, como é conhecido. "Se não pudermos fechar os negócios que entendemos necessários, saímos no dia seguinte".

Com o histórico que o Bertin Energia adquiriu em pouco menos de dois anos, os bancos podem fechar novamente as portas à empresa sem uma gestão profissional. Todas as térmicas da companhia têm contratos de venda de energia por 15 anos. A partir do momento em que essas usinas entram em operação, o crédito é quase líquido e certo em função dos recebíveis de qualidade. O problema é que, na fase de construção, o grupo precisa usar recursos próprios. Por isso, a estratégia é se desfazer de parte de seus ativos. Além disso, atrasos e inadimplência podem significar a perda da concessão e consequentemente dos contratos de energia.

Pela primeira vez neste ano, o grupo não está inadimplente na Câmara de Comercialização de Energia Elétrica e está honrando contratos de lastro de energia - que são necessários pelo atraso na entrada em operação de nove de suas termelétricas. As multas, de algumas dezenas de milhões, estão sendo discutidas na Justiça. Do portfólio da empresa, cerca de 700 MW, de cinco usinas, já estão em operação. Em atraso, são cerca de 1.800 MW e a companhia ainda tem o desafio de colocar em funcionamento 12 termelétricas com capacidade total de 2.600 MW até janeiro de 2013, cronograma que não é mais possível de cumprir.

As tentativas de venda das termelétricas foram inúmeras, mas a família Bertin até agora resistia em fechar negócio (a exceção foi com duas usinas vendidas à MPX). As negociações acabavam sendo atravessadas, por isso a decisão de colocar o Credit Suisse como único assessor, sem passar pela companhia. A estratégia traçada para quais ativos vender e a quantidade foi feita a quatro mãos, segundo Fernando Bertin. "Estamos confiantes que os negócios serão fechados em função dos preços da energia no último leilão do governo federal", diz.

A energia das usinas termelétricas leiloadas neste ano ficou em R$ 104 o MWh. A mais barata usina da Bertin, vendida em 2008, tem o preço da energia a R$ 120, sem correção monetária. As usinas de 2013 foram vendidas a R$ 150. Os contratos de óleo combustível da maior parte delas, com a trading internacional Glencore, também fará parte do pacote de venda.

O grande salto do Bertin no setor foi dado em 2008, quando vendeu quase 4 mil MW em sociedade com a Equipav. Fernando diz que sabia o tamanho do empreendimento, mas na época havia a expectativa de um sócio estratégico. Além de não conseguir esse sócio financeiro, a Bertin ainda comprou a parte da Equipav. Os cerca de R$ 1,2 bilhão investidos até agora são oriundos da holding do grupo, segundo Fernando. A empresa estava capitalizada em função da venda do frigorífico para o JBS, em 2009, e ainda da venda de pequenas centrais hidrelétricas e da divisão de cosméticos do grupo.
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