Empresas

A Eletrobrás no exterior

O Estado de S.Paulo
10/08/2010 09:52
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Surpreendeu a declaração do superintendente de operações internacionais da Eletrobrás, Sinval Gama, de que a estatal pretende comprar até 5% de participação em empresas de transmissão e distribuição de energia já instaladas nos Estados Unidos. Segundo ele, a ideia é adquirir 300 MW até o fim do ano, pois com "quaisquer US$ 60 milhões é possível comprar alguma coisa" nos EUA. Pergunta-se: a Eletrobrás está em condições de investir no exterior antes mesmo de sanear financeiramente as distribuidoras que são suas subsidiárias no Brasil? É preciso esclarecer também de onde a estatal vai tirar o dinheiro para isso, tendo em vista os pesados investimentos que terá de fazer no País na área de geração, bastando citar a construção da megausina de Belo Monte.


Não é de hoje que são conhecidas as pretensões da Eletrobrás de se transformar em "uma Petrobrás da energia elétrica", com braços internacionais, o que parece ter virado moda dado o viés estatizante do atual governo. Afirmou o diretor da Eletrobrás que "o momento é bastante propício para investir nos EUA, já que o governo americano quer ampliar os projetos voltados para energia limpa". Pode ser. Mas, certamente, não é um bom momento para o governo exportar capitais.


Como revela o Banco Central, os investimentos estrangeiros diretos no País somaram US$ 12,058 bilhões no primeiro semestre deste ano. No mesmo período, os investimentos brasileiros no exterior foram de US$ 8,556 bilhões. O saldo, portanto, foi de apenas US$ 3,502 bilhões. Isso significa que, com um elevado déficit em conta corrente (US$ 24,302 bilhões no semestre), o País é hoje mais dependente de empréstimos e aplicações de curto prazo. Com uma forte posição em reservas externas e continuando a atrair capitais, o Brasil não está sob ameaça de uma crise de balanço de pagamentos, mas os dados aconselham prudência. Se o governo não tem recursos suficientes para investimentos em infraestrutura dentro do País, que dirá lá fora. As ambições internacionais da Eletrobrás não condizem com a realidade, ainda mais porque seus problemas internos não foram resolvidos. No início de junho, o Banco Mundial aprovou um financiamento de US$ 495 milhões para a holding estatal, para a reestruturação operacional de seis distribuidoras sob seu controle (Ceal, Ceam, Cepisa, Ceron, Cemar e Eletroacre, todas no Norte e Nordeste do País).


Como declarou na ocasião o diretor do Banco Mundial para o Brasil, Makhtar Diop, "o projeto vai quebrar o círculo vicioso de perdas financeiras e ajudar a remover gargalos para o desenvolvimento econômico e social dessas regiões". Financiamentos desse tipo exigem contrapartida em reais, mas seriam justificáveis se as preocupações da estatal, antes de partir para investidas no exterior, estivessem mais voltadas para arrumar a casa.



Não é o que se constata. A Eletrobrás prepara-se para longos voos, estando nos planos, além do investimento nos EUA, usinas no Peru, Argentina e Nicarágua, que começarão a ser construídas no máximo até o fim do primeiro semestre de 2011. E em evento sobre a integração Brasil-Bolívia, foi mencionada a construção de uma linha de transmissão de 500 km entre Brasil e Uruguai, bem como estudos para investir na Colômbia, Guiana, Costa Rica, El Salvador e Honduras, além de um curioso "intercâmbio de tecnologia" com a Bolívia.


Por decisão de suas diretorias, empresas privadas brasileiras vêm procurando internacionalizar-se, o que é facilitado pela sobrevalorização do real e estimulado pela visão de que, em um mundo globalizado, devem diversificar mercados, para evitar serem absorvidas por empresas estrangeiras. Este é um risco que a Eletrobrás, uma estatal, não corre.



Alguns projetos de integração na área de energia elétrica com países vizinhos podem até ser de interesse nacional, mesmo considerando a possibilidade de descumprimento de contratos, como já ocorreu. Quanto ao interesse da Eletrobrás em investir em energia limpa, que o faça aqui, de forma eficiente e rentável.
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