Artigo Exclusivo

Os carros elétricos e o futuro dos hidrocarbonetos, por Bruno Epiro Gruenbaum

Bruno Epiro Gruenbaum
26/02/2019 11:00
Os carros elétricos e o futuro dos hidrocarbonetos, por Bruno Epiro Gruenbaum Imagem: Divulgação Visualizações: 1579

Segundo dados apresentados pelo Sr. Fatih Birol, diretor executivo da IEA (Agência Internacional de Energia), no debate sobre energia do Fórum Econômico Mundial em Davos, chegamos ao incrível número de 5 milhões de veículos elétricos e híbridos (EVs) que foram fabricados no mundo. Metade desta frota, 2,5 milhões de carros, apenas na China. Em um ano apenas (2016 até 2017) o crescimento foi de cerca 55%. São números impressionantes, ainda mais se levarmos em conta as ainda poucas opções de automóveis deste tipo disponíveis do mercado. Mas o que isso efetivamente representa a curto prazo para o fim do petróleo e dos hidrocarbonetos em geral? Segundo o próprio Sr. Birol, muito pouco.

Institucional

O argumento apresentado é que, pelo menos por enquanto, ainda existem cerca de 1 bilhão de veículos movidos a combustíveis fósseis pelo planeta. Ou seja, menos de 0,5% dos carros existentes são elétricos. O executivo ainda afirmou que estes 5 milhões economizariam por volta de 50 mil barris de óleo/dia. No entanto, a previsão da demanda para 2019 é de crescimento mundial de 1,3 milhões de barris de óleo/dia. E mesmo que fossem 300 milhões de carros elétricos, o impacto na diminuição de CO2 no mundo seria de menos de 1%.

O mesmo pensamento é compartilhado por Mark Schwartz, diretor da consultora Platts Analytics. Segundo ele, o hidrocarboneto ainda vai ter lugar de destaque até 2040. Isso porque grandes veículos de transporte de carga como caminhões, aviões, navios, além de fábricas e indústria de plástico, ainda devem utilizar energia fóssil. O que deverá ser afetado pelo crescimento dos carros elétricos é o subproduto gasolina.

E mesmo assim, a previsão dele é de que até meados de 2030, cerca de 70% dos carros de passeio ainda serão movidos a combustão, pois o aumento drástico no número de aquisições de novos veículos será em países e locais em início de desenvolvimento, principalmente África Subsaariana e partes da Ásia, onde dificilmente existirão condições para financiar a infraestrutura necessária para adaptação aos elétricos. Vale pontuar que essas previsões, principalmente quando feitas a muito longo prazo, possuem elevado grau de incerteza, principalmente quando tratam de tecnologias disruptivas.

Porém, aparentemente, os carros elétricos não são e nem serão o principal motivo da derrocada do petróleo no curto prazo. Tão pouco os salvadores do meio-ambiente. No entanto, é importante dizer que, apesar de não serem grandes vilões do aquecimento global, carros movidos a combustíveis fósseis são sim bastante poluentes, principalmente em grandes conglomerados urbanos.

A poluição gerada pelas queimas de gasolina e diesel nas grandes cidades ajudam a criar aquela poeira fina - conhecida como PM2.5 - que causa diversas doenças, indo de alergia a câncer pulmonar. Portanto, EVs são ideais por não gerarem fumaça e devem ser incentivados principalmente em regiões urbanas com grande concentração de pessoas.

O próprio boom dos carros elétricos na China foi desencadeado por medidas públicas criadas pelo governo para diminuir o índice de PM2.5 que afetava a saúde da população. As medidas de incentivo aos carros com motores elétricos, iniciadas em 2014, eram voltadas para a diminuição da poluição do ar, principalmente em megalópoles como Pequim, Xangai ou Shenzhen, e acabaram por gerar externalidades positivas para a indústria de EVs.

De fato, o uso de veículos elétricos nas grandes cidades e centros urbanos é muito apropriado. EVs além de não emitirem poluentes no ar, são silenciosos e quando estacionados podem perfeitamente ser interligados ao sistema elétrico funcionando como sofisticados geradores móveis aliviando a carga nas horas de pico.

Portanto, para que haja um equilíbrio entre população mundial que cresce exponencialmente (necessitando de energia) e equilíbrio na temperatura do planeta é preciso fazer mais do que depender da eletrificação dos veículos. E fazer mais tendo em mente que o mundo continuará utilizando o hidrocarboneto como uma das principais fontes energéticas pelos próximos 30, 40 anos. O que será diferente é que o crescimento da demanda global de energia será suprido pela maior quantidade de energias advindo de matrizes renováveis como a solar e eólica.

Achar ainda que essas matrizes mais limpas irão varrer de vez o hidrocarboneto do mapa também é falacioso. Elas são fontes que complementam o suprimento energético. A utilização de cada matriz deve ser equacionada e utilizada de forma planejada e integrada para maximizar as vantagens e minimizar as desvantagens umas das outras.

Uma boa notícia para o setor de O&G é que o gás natural será necessário para tornar o mundo mais verde. O gás é considerado “ponte” para a transição de uma matriz energética mais limpa de baixo carbono, principalmente para geração de eletricidade. Isso porque ao substituir usinas térmicas de carvão mineral por usinas de gás natural, deixaríamos de liberar cerca de 1/3 de CO2 gerando a mesma quantidade de energia. Infelizmente em países como Índia e Polônia, o carvão é a principal matriz energética e ainda tende a crescer. Lembrando que usinas térmicas, por serem de base, vão muito bem com matrizes solares e de vento.

O próprio carro elétrico será muito mais “limpo” se a energia elétrica que carregou a sua bateria não vier do carvão. Ponto para a indústria que produz o gás natural.

Em suma, a indústria do petróleo está a salvo. Pelo menos por enquanto. Porém, é preciso que o Brasil tenha pressa na sua extração porque a longo prazo ele será cada vez menos necessitado. É preciso retirá-lo de debaixo da terra e do mar enquanto ainda possui valor e, com o dinheiro proveniente, criar reservas financeiras que financiem novas matrizes energéticas e novas tecnologias (talvez hidrogênio ou mesmo os biocombustíveis) para um futuro próspero para o país e para o planeta.

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Gostaria de agradecer a Bruna Mascotte e Guilherme Ferreira da Catavento Consultoria pelos insights e sugerir aos leitores que se interessarem por maiores informações e uma visão mais ampla, o excelente artigo: “Revolução elétrica. Um cenário possível para a mobilidade no Brasil?”. http://catavento.biz/papers/revolucao-eletrica-um-cenario-possivel-para-mobilidade-no-brasil/

Sobre o autor: Bruno Epiro Gruenbaum, é administrador, pós-graduado em Finanças e Marketing com especialização em Inteligência Competitiva, Estratégia Empresarial e análise Macroeconômica. Atua no setor de Óleo & Gás à 11 anos. Há 2, criou a BrMax, companhia voltada a prover Inteligência de Mercado e Análise Competitiva para médias e pequenas empresas que operam no mercado de energia.

 

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