Etanol

Um novo perfil dos trabalhadores nas refinarias de etanol

Redação/Assessoria Fapesp
19/10/2017 14:01
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As mudanças tecnológicas pelas quais tem passado o setor sucroenergético brasileiro nos últimos anos, tais como a substituição do plantio e da colheita manual pela mecanizada e a produção de etanol de segunda geração (2G) – obtido da palha e do bagaço da cana-de-açúcar –, tem modificado o perfil de trabalhadores atuantes nas refinarias de etanol.

Apesar de as novas tecnologias agrícolas e industriais terem contribuído para a diminuição do número de trabalhadores no setor, por outro lado elas têm dado origem a um novo perfil de profissional, mais escolarizado, melhor remunerado e menos suscetível a acidentes ocupacionais.

As constatações são de um estudo realizado por pesquisadores do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE) do Centro Nacional de Pesquisa em Engenharia e Materiais (CNPEM).

Os resultados do estudo foram publicados no International Journal of Life Cycle Assessment e apresentados na Brazilian BioEnergy Science and Technology Conference (BBEST) 2017, em Campos do Jordão.

Promovido pelo Programa FAPESP de Pesquisa em Bioenergia (BIOEN), o evento reúne até a próxima quinta-feira (19/10) pesquisadores do Brasil e do exterior com o objetivo de discutir os avanços na pesquisa em bioenergia.

Constatamos que ocorreu uma diminuição do número de trabalhadores necessários para produzir etanol, mas, em contrapartida, houve uma melhora nas faixas salariais e aumentou a participação de trabalhadores com maior nível de escolaridade no setor”, disse Alexandre Souza, pesquisador do CTBE, à Agência FAPESP.

Souza e colegas avaliaram os impactos sociais das mudanças tecnológicas no setor sucroalcooleiro por meio de uma ferramenta de simulação computacional desenvolvida pelo CTBE, denominada Biorrefinaria Virtual de Cana-de-Açúcar (BVC), que possibilita prever a integração de novas tecnologias à cadeia produtiva de cana-de-açúcar e de outras biomassas nas fases agrícola, industrial e comercial.

A ferramenta tem um programa, CanaSoft, que simula atividades agrícolas por meio da incorporação de parâmetros como tipos de colheita e plantio, etapas de transporte, operações agrícolas, maquinários, implementos, agroquímicos, fertilizantes e a quantidade de horas de trabalho necessárias para a produção de etanol.

Com base nessa ferramenta e em dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) e do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), fornecidos por usinas ao Ministério do Trabalho, além de dados estatísticos da Previdência Social, os pesquisadores avaliaram os efeitos das mudanças tecnológicas agrícolas e industriais na criação de empregos, acidentes de trabalho e nos perfis salariais e educacionais em três cenários de produção de etanol.

O primeiro cenário é caracterizado pela produção de etanol de primeira geração (1G) com tecnologia mais defasada, com plantio semimecanizado e colheita manual, que apesar de ter sido abolida em quase 90% dos canaviais no Estado de São Paulo, ainda ocorre no Nordeste e em áreas onde a operação de colheita mecanizada é limitada em razão da inclinação do terreno.

Já o segundo cenário contempla a produção de etanol 1G com tecnologia otimizada, caracterizada pelo plantio e colheita da cana mecanizada e produção de eletricidade a partir da queima da biomassa. E o terceiro cenário abrange a produção de etanol 1G integrado ao 2G.

Os resultados das análises indicaram que a mecanização da colheita e a produção de etanol 2G causam uma queda do número de trabalhadores em razão da diminuição da necessidade de pessoas para realizar operações manuais, como de plantio e de colheita, e de cana para produzir etanol 2G, que possibilita maior rendimento por hectare. Além disso, também ocorre uma diminuição da ocorrência de acidentes ocupacionais no setor, relacionados principalmente à mecanização.

"Estimamos que a diminuição de acidentes ocupacionais no setor se deva ao fato de ter um menor número de trabalhadores envolvidos nas atividades, que estão melhor protegidos e não têm que enfrentar mais as condições do corte manual da cana", disse Souza.

Perfis salariais e educacionais

Outras mudanças promovidas pela transição tecnológica foram no perfil salarial dos trabalhadores, indicou o estudo. Enquanto na produção de etanol 1G a maioria dos trabalhadores recebia salário mensal de 1 a 1,5 salário mínimo, com a mecanização houve um aumento da proporção de trabalhadores com faixa salarial entre 2 e 3 salários mínimos.

"Com a mecanização aumentou a participação dessas faixas salariais porque há uma exigência de trabalhadores mais tecnificados, como operadores de máquina", explicou Souza. Esse aumento da tecnificação também se refletiu no novo perfil educacional dos trabalhadores do setor.

O nível de escolaridade da maioria dos trabalhadores no cenário de produção de etanol 1G era o ensino básico incompleto. Já no cenário de produção de etanol 1G otimizado ou integrado ao de segunda geração há um aumento da proporção de trabalhadores com ensino médio completo.

"Esse efeito de aumento da escolaridade pode ser ainda mais positivo se o setor estiver promovendo investimentos em treinamentos para que trabalhadores que faziam a coleta manual da cana se tornem operadores de máquinas, por exemplo, em vez de simplesmente substituí-los", avaliou Souza.

O estudo Social life cycle assessment of first and second-generation ethanol production technologies in Brazil (doi: 10.1007/s11367-016-1112-y), de Souza e outros, pode ser lido no International Journal of Life Cycle Assessment em https://link.springer.com/article/10.1007/s11367-016-1112-y.

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