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Transferência de tecnologia não deve visar lucro para universidades

Redação/Assessoria Fapesp
17/12/2018 08:50
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Os chamados escritórios de transferência de tecnologia (TTO, na sigla em inglês) têm se destacado na Europa e nos Estados Unidos por fazer a conexão entre a academia e a indústria, gerando novas patentes e produtos e mesmo trazendo lucro para algumas universidades. Esse último, porém, não deve ser o objetivo dessas agências. O principal deve ser oferecer aos alunos contato com os problemas que as empresas precisam superar e trazer para a sociedade as inovações pelas quais ela já paga, por meio de seus impostos.

Essa é a opinião de Alison Campbell, diretora da Knowledge Transfer Ireland, órgão criado em 2013 na Irlanda para facilitar a transferência de conhecimento entre indústria e academia. Campbell foi uma das palestrantes do FAPESP/Ireland Workshop on Knowledge Transfer, ocorrido no dia 3 de dezembro na sede da FAPESP, em São Paulo.

Campbell contou que, mesmo nos Estados Unidos, são poucos os TTOs em que há um retorno em forma de lucros para a universidade. “Quando vemos as estatísticas, imaginamos que os Estados Unidos estão fazendo um trabalho incrível, licenciando muitos produtos e obtendo centenas de milhões de dólares em retorno para essas instituições. Mas no fundo são poucas que estão realmente obtendo lucro”, disse Campbell.

O contato com empresas traz também vantagens para o ensino nas universidades, ao colocar estudantes em contato com a realidade empresarial. “Isso requer que a universidade pense que [essa interação] é algo muito importante. Fico realmente impressionada com quanto alguns dos nossos institutos universitários estão à frente. E não é apenas liderança, mas o ambiente que eles criam”, disse.

Campbell citou o exemplo da Universidade de Limerick, no sul da Irlanda, em que os estudantes têm a oportunidade de passar um tempo em uma empresa ainda na graduação, observando os problemas que têm de ser resolvidos no dia a dia.

“Isso é excelente para os estudantes. Para fazer isso, a maioria das faculdades precisa desenvolver uma relação com as empresas, porque esses alunos necessitam ser supervisionados no período que estiverem lá. Isso cria um ambiente mais vibrante e conectado, ao mesmo tempo em que aumenta a compreensão da forma que as faculdades pensam em termos de pesquisa e os desafios que existem nas empresas”, disse.

Um problema de contar com retorno financeiro dos TTOs é que, mesmo que haja lucro em algum momento, ele não será constante. Não é possível contar com esse dinheiro para planejar anos futuros. Campbell disse ter conversado com pessoas em agências do tipo em diferentes países e todos concordam que é “ilusório” pensar que elas podem ser uma fonte de recursos.

“Uma colega trabalha em um desses escritórios, que recebe muitos pagamentos de royalties por conta de medicamentos desenvolvidos a partir de patentes dessa universidade. Mas agora ela precisa explicar para a universidade que haverá outras patentes e royalties, mas nada nos próximos cinco anos, devido à própria natureza do ciclo de inovação”, disse.

Colaboração internacional

Em parte por conta do tamanho relativamente pequeno do país, Campbell afirmou que a Irlanda sempre manteve bastante colaboração internacional na ciência. “Queremos ver mais disso. Colaboração significa acesso a habilidades, expertises, novos conhecimentos, diferentes formas de pensar e criação em conjunto. É incrivelmente positivo e enriquecedor”, disse.

O Brasil é um desses parceiros, e nos próximos dias um novo acordo será firmado entre o Irish Research Council, a agência federal de apoio à pesquisa, e a FAPESP.

“Nosso objetivo é lançar chamadas de propostas para grandes projetos em colaboração com pesquisadores de lá e daqui, em que cada país financia sua parte. Esse é um modelo que a FAPESP tem usado com diversas agências internacionais de fomento à pesquisa”, disse Marilda Bottesi, assessora especial para colaborações em pesquisa da FAPESP.

As pesquisas financiadas serão em todas as áreas e não precisam ser necessariamente voltadas a aplicações imediatas.

“Durante o período do Ciência Sem Fronteiras, recebemos mais de 3,3 mil estudantes brasileiros, que fizeram estudos em nível universitário e criaram vínculos de pesquisa entre o Brasil e a Irlanda. Este contato deu origem a eventos e parcerias”, disse Barry Tumelty, cônsul-geral da Irlanda em São Paulo, à Agência FAPESP.

“A parceria com a FAPESP abrirá a possibilidade de colaborarmos ainda mais. A Irlanda agora está em 11º lugar no mundo em termos de qualidade de pesquisa, faz parte da União Europeia, então é um parceiro lógico para brasileiros que querem ter acesso ao novo programa de pesquisa da UE, o Horizon 2020”, disse o diplomata, referindo-se ao programa europeu que pretende investir cerca de € 100 bilhões em ciência, tecnologia e inovação entre 2021 e 2027.

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