Combustíveis

Petrobras já negocia reajuste com o governo

Valor Econômico
18/08/2005 00:00
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Apesar de o discurso oficial da Petrobras dizer que seus preços estão alinhados com o mercado internacional, exceto a volatilidade, internamente a empresa reconhece que os preços estão defasados e vão ficar ainda mais. A estatal negocia com o governo para reajustar a gasolina e o diesel nas próximas semanas, no máximo até outubro. Segundo o Valor apurou com fontes qualificadas da estatal, a empresa não espera mais queda do preço internacional do óleo para menos de US$ 60 por barril e já trabalha com a hipótese de o preço alcançar até US$ 80 neste ano.
Diante desse quadro, mesmo a valorização do real em relação ao dólar (o preço dos combustíveis é calculado, entre outras coisas, por uma fórmula que combina cotação internacional e variação do dólar) não foi suficiente para evitar a defasagem nos preços dos combustíveis mais populares (gasolina, diesel e GLP, o gás de cozinha).
Em 25 de novembro do ano passado (data do último reajuste de gasolina e do diesel, respectivamente, de 7% e de 10% ), o preço do barril do tipo brent, referencial da Petrobras, estava cotado em US$ 44,66 - uma diferença de 40,2% comparada à cotação de fechamento de ontem (US$ 62,62). Já a diferença entre as cotações do dólar no período foi bem mais modesta. Dos R$ 2,73 da data do reajuste para os R$ 2,35 de ontem, a variação foi de 13,9% para baixo.
Questionado sobre o longo período de tempo entre o último ajuste e os preços atuais do petróleo, o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, se esquivou da resposta dizendo que os números do balanço do segundo trimestre refletiam a realidade até junho, deixando subentendido que a realidade agora pode ser outra.
O fato é que na terça-feira, a Petrobras formou um "batalhão de choque" entre os gerentes-executivos das áreas de abastecimento, exploração e produção e relações com investidores para responder aos números do balanço da companhia. Mas os que ouviram, incluindo analistas do mercado, não estão muito convencidos.O analista Thiago Queiróz, do BES Securities, calcula que atualmente a gasolina vendida no Brasil está com defasagem de 32% em relação aos preços de comercialização no golfo americano. Já no diesel, ele calcula uma defasagem de 27%. A diferença de preços aumentou bastante nos últimos 15 dias e Queiróz está entre os que esperam um reajuste para breve. "Ela precisa estar reajustando por agora, até porque em outubro do ano passado, quando fez o primeiro movimento de preços, a defasagem estava bem próxima do que está hoje", ressalta.
Para outros analistas, se não é suficiente para sustentar os preços estáveis, a valorização do real pode tornar o reajuste da gasolina palatável ao consumidor e ao governo, fazendo com que ele fique abaixo de 10% e mais próximo de 5%. O reajuste do GLP nem é cogitado, especialmente em meio à crise política, que é também o principal obstáculo até para o aumento da própria gasolina. Os demais derivados do petróleo (querosene de avião, nafta petroquímica e óleo combustível) já acompanham os preços internacionais.
A análise feita no comando da Petrobras é que o preço do petróleo não vai baixar porque a oferta e a demanda estão muito parelhas e as refinarias estão trabalhando a plena capacidade. Essa situação deixa o preço do barril muito suscetível a variações bruscas ao sabor das notícias nos grandes centros produtores e consumidores. O problema se complica ainda mais porque não houve a esperada desaceleração do crescimento da economia chinesa.
Abarrotada de reservas monetárias monetárias oriundas das suas exportações, a China não precisa conter seu crescimento econômico por causa do preço do petróleo, embora seja uma das maiores importadoras do mundo. Segundo um analista, os preços internacionais do óleo não são repassado aos preços internos, fazendo com que a atividade econômica chinesa não seja afetada por eles.
Outro fator que estaria dificultando a queda dos preços seria o fato de, ao contrário do momento da crise de 1979, a maior parte das reservas internacionais estar hoje concentrada nas mão de empresas estatais. Essas, diferente das companhias privadas, majoritárias em 1979, têm, por razões estratégicas, muito mais dificuldades para decidir transformar reservas em produção, já que isso reduziria a vida útil dos seus reservatórios, principal fonte de renda desses países.

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