Petrobras

Independência ameniza efeitos de crises, diz Gabrielli

Valor Econômico
20/04/2006 00:00
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O presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, não separa os destinos do Brasil e da estatal. A auto-suficiência, argumenta, serve a ambos. "Para nós, o melhor arranjo é produzir no Brasil, refinar no Brasil e vender para o Brasil", diz ele. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Valor.

Valor: Para alguns analistas, a auto-suficiência não é tão importante para a Petrobras como para o Brasil.

José Sérgio Gabrielli: É evidente que ela é principalmente um grande feito para o Brasil. Mas é também para a Petrobras porque nossa capacidade de refino é mais de 90% da capacidade de refino brasileira. Claro que o que acontece com o Brasil interessa à Petrobras. É uma maluquice dizer que não. E isso é completamente diferente das empresas russas e da Venezuela. A Rússia é auto-suficiente, mas as empresas russas são fortemente exportadoras. E a Venezuela, também auto-suficiente em petróleo, exporta 85% da produção. Aqui, o destino do Brasil e da Petrobras estão integrados, 85% da nossa receita vem do mercado local.

Valor: Porque a auto-suficiência é importante para a Petrobras?

Gabrielli: Somos produtores de petróleo e temos refinarias. E ser auto-suficiente para o Brasil significa que o suprimento para nossas refinarias está garantido. É evidente que isso é importante. Uma empresa quer a tranqüilidade de ter fornecimento de matéria-prima adequado com preços referenciados abaixo do preço do petróleo leve, isso é um excelente negócio.

Valor: Alguns dizem que a Petrobras é uma empresa complexa, grande e sofisticada e que, portanto, não importa onde é a produção, mas que ela aumente.

Gabrielli: Evidentemente que se tenho várias fontes de suprimento eu reduzo o risco, isso é análise financeira. Só que existe qualidade de produtos diferentes. Existe petróleo pesado, petróleo leve, com mais e menos enxofre, e isso tem a ver com a estrutura do refino, com a complexidade da refinaria e sua capacidade de processar determinado tipo de petróleo. Ela é mais ou menos eficiente dependendo do tipo de petróleo usado. Então, para nós, o melhor arranjo é produzir petróleo no Brasil, refinar no Brasil e vender para o Brasil.

Valor: Com os aumentos dessa semana o CBIE calcula que ontem a gasolina vendida no Brasil estava 18% mais barata. Essa disparada pode elevar os gastos da Petrobras com importação e reduzir a receita?

Gabrielli: Esse é um grande momento para mostrar a importância da auto-suficiência. Os preços do petróleo subiram na última semana porque há uma crise política no Irã e o mercado internacional, olhando para o futuro, está dizendo que pode ter uma guerra e se isso acontecer a produção de petróleo vai entrar em crise em um grande produtor. Portanto, o fornecimento de petróleo vai diminuir. Então, os agentes, se antecipando a uma crise de fornecimento físico no futuro, ajustam os preços agora. E no Brasil, que tem a auto-suficiência, porque tenho que ajustar o preço doméstico em função disso? Não podemos olhar só para ganhar mais dinheiro porque mato o mercado. Auto-suficiência permite estabilizar o fornecimento. Mas no longo prazo, se isso persiste, você não pode ficar descolado do que acontece porque para garantir a auto-suficiência é preciso repor os barris produzidos. E para isso é preciso fazer sísmica, perfuração, sondas e serviços, e tudo está associado ao preço internacional e não ao nacional. Mas o efeito leva tempo e não precisamos transferir para o Brasil todas as crises.

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