Etanol

EUA e Brasil se envolvem em guerra comercial de biocombustíveis

Bloomberg, 25/08/2017
25/08/2017 09:59
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Uma guerra comercial eclodiu no mercado mundial de biocombustíveis e poderia causar repercussões nos mercados de commodities, do petróleo ao óleo de soja.

A última salva veio do Brasil na quarta-feira, quando o País decidiu instituir um imposto de 20 por cento sobre as importações de etanol que excederem um limite anual de 600 milhões de litros, de acordo com dois membros do gabinete que pediram anonimato antes que a decisão se torne pública. A medida ocorreu um dia depois que o Departamento de Comércio dos EUA propôs multas aos produtores de biodiesel da Indonésia e da Argentina, afirmando que eles se beneficiam de subsídios nacionais.

Os tiros estão sendo disparados em meio ao crescente protecionismo do presidente dos EUA, Donald Trump. A ação do Departamento de Comércio dos EUA sobre o biodiesel argentino e indonésio pode ter dado cobertura ao Brasil para agir em relação ao etanol dos EUA, disse Jerrod Kitt, analista da Linn Associates em Chicago.

Embora os EUA estejam agindo na tentativa de beneficiar sua própria indústria, os produtores americanos podem acabar sendo vítimas, porque mandam uma parte significativa de seu produto ao exterior, inclusive para o Brasil, seu principal cliente. A China já instituiu impostos ao etanol e a um subproduto para ração animal produzidos nos EUA no início deste ano.

"A situação pode ficar feia", disse Scott Irwin, economista agrícola da Universidade de Illinois em Urbana, em entrevista por telefone. "Todo mundo intervém intensamente nos biocombustíveis."

Mercados agrícolas

As tensões crescentes poderiam repercutir nos mercados agrícolas que sustentam os biocombustíveis. Os EUA são o maior produtor mundial de milho e soja, as principais matérias-primas para o etanol e o biodiesel. O Brasil é o maior produtor de cana-de-açúcar, que utiliza na produção de etanol. A Argentina é o principal exportador de óleo de soja.

A decisão do Brasil de cobrar imposto às importações de etanol provavelmente afetará os produtores dos EUA, que venderam 965 milhões de litros para o país sul-americano neste ano até maio, de acordo com dados da Administração de Informações de Energia dos EUA. Isso equivale a 42 por cento do total exportado.

A Associação de Combustíveis Renováveis, a Growth Energy e o Conselho de Grãos dos EUA, grupos do setor com sede em Washington, expressaram decepção com a medida brasileira em um comunicado conjunto divulgado na quarta-feira.

´A política prevaleceu´

"Considerando o enorme volume de informações que fornecemos ao Brasil para demonstrar que um imposto seria equivocado, parece que hoje a política prevaleceu e os consumidores brasileiros saíram perdendo", afirmaram os grupos.

As tensões poderiam aumentar ainda mais. Trump analisou diversas vezes os pactos comerciais. Em um discurso na terça-feira em Phoenix, o presidente disse que acha que os EUA vão sair do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta, na sigla em inglês). A indústria de biocombustíveis dos EUA está fortemente concentrada no Centro-Oeste, região que, segundo Trump, lhe deu impulso para chegar à Casa Branca.

"Se este fosse um governo normal, que não se concentrasse" tanto no comércio, isso não seria tão impactante, disse Kitt, da Linn Associates. "Suponho que ele poderia agir para favorecer essa base."

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