Sustentabilidade

Energia renovável continua a ser um artigo de luxo no mundo

Valor Econômico
17/12/2009 09:48
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Plataforma básica para que seja possível fazer a transição entre o atual modelo e uma economia de baixo carbono, com emissões limitadas de gases de efeito estufa, a energia renovável é hoje um ativo de elite. Com preços ainda bastante altos em relação às tecnologias tradicionais, as chamadas fontes limpas estão longe de ser uma opção viável para grande parte da população mundial.

 

A Índia, com mais de 1 bilhão de habitantes e grandes contrastes econômicos, fornece um bom retrato da situação. "Temos um desafio grande de fornecimento: 60% das pessoas não têm acesso à energia. E se o objetivo é aumentar o acesso em um contexto de baixas emissões não é possível as soluções terem preços inviáveis", diz Sunita Narain, do Centro de Ciência e Desenvolvimento, de Delhi, que participou ontem de reunião sobre energia promovida pela União Europeia na CoP-15.

 

Os cientistas avaliam que as emissões de gases-estufa precisam ser reduzidas muito rapidamente a partir de 2015 até serem zeradas na metade do século se o mundo quiser ter pelo menos 75% de chances de evitar um aumento superior a 2º C na temperatura. Para isso, é preciso fazer um investimento maciço em energia renovável e em pouco tempo, alerta Alan Atkisson, consultor do Departamento de Assuntos Econômicos da ONU que esteve à frente da elaboração de uma proposta para promover um "Green New Deal" global que permita superar desafios climáticos, de desenvolvimento e da área de energia.

 

"Precisamos reinventar tudo o que vínhamos fazendo", defende Ebojsa Nakicenovic, vice-diretor do International Institute for Apllied Systems Analysis (IIASA). Para adotar um padrão mais limpo, explica, a eficiência é central. "Descarbonizar" significa eliminar dos processos ou pelo menos capturar os gases-estufa.

 

Segundo os cálculos de Nakicenovic, anualmente os investimentos globais em energia ficam em torno de US$ 500 bilhões a US$ 600 bilhões, valor que considera "relativamente baixo" na comparação com o PIB mundial de aproximadamente US$ 50 trilhões. De forma paralela, acrescenta, a questão energética absorve por ano cerca de US$ 200 bilhões a US$ 300 bilhões em subsídios do governo.

 

Investimentos anuais de US$ 150 bilhões seriam, segundo suas estimativas, suficientes para garantir que em 20 anos os 500 milhões de casas que hoje não têm eletricidade ou mesmo de um fogão superassem essas carências. Nakicenovic considera que o acesso à energia é básico no processo de desenvolvimento verde. Até uma questão de justiça com "o terço da população mundial que até agora não desfrutou das emissões acumuladas na atmosfera".

 

Hoje, 1,6 bilhão de pessoas não têm acesso à energia - 80% dos quenianos, por exemplo, vivem essa situação. Cerca de 2,4 bilhões de pessoas usam lenha para cozinhar, em fogões ou mesmo em fogueiras. Até a utilização de fontes fósseis para cozinhar traria uma redução importante de emissões.

 

"É preciso dar escala à energia renovável", afirma Johan Rockström, diretor do Stockholm Environment Institute. Para ele, o caminho é a adoção de tarifas subsidiadas, que garantiriam aos investidores retornos atraentes no período em que as tecnologias estivessem sendo aprimoradas.

 

Nos países desenvolvidos, basicamente no hemisfério Norte, os consumidores iriam arcar com esse custo adicional - como na Alemanha - e nas nações pobres, onde o consumidor pagaria bem menos para garantir condição de acesso, um fundo internacional responderia pela diferença.

 

Mas, adverte Rockström, é preciso ter números "bem definidos", tanto para os preços quanto para o período em que o subsídio ficaria em vigor. Os custos, por exemplo, deveriam se tornar viáveis para o consumidor e também competitivos em relação às energias tradicionais - que atualmente variam entre US$ 0,03 e US$ 0,05 por kWh - até 2025, em termos globais. A garantia de preço aos fornecedores de energia renovável seguiria uma curva descendente até atingir o preço-alvo, no ano fixado.

 

Novas tecnologias, avalia John Schellnhuber, diretor do Instituto para Pesquisa de Impacto Climático de Potsdam, são usualmente mais caras que as já estabelecidas. A situação das energias renováveis, hoje, não é inédita. "Os carros, quando surgiram, eram mais caros do que os cavalos, os relógios digitais eram mais caros que os analógicos."

 

Essa aposta no futuro, com um horizonte mais largo de investimentos, é a única alternativa viável hoje para Tariq Banuri, diretor da Divisão de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Subir os preços dos combustíveis fósseis para subsidiar as fontes renováveis, diz, seria letal para a economia dos países em desenvolvimento. "A única forma de baixar o preço é investir na expansão da capacidade. Com escala o preço vai cair. Isso precisa ser encarado não como um ônus, mas como um investimento."

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