Sustentabilidade

Eletricidade 'salva' usina de etanol no Centro-Oeste

Boa Vista absorveu R$ 1,3 bilhão em investimentos ao longo dos últimos seis anos.

Valor Econômico
08/04/2014 11:31
Visualizações: 1673

 

Após absorver R$ 1,3 bilhão em investimentos ao longo dos últimos seis anos, a Boa Vista, usina produtora de etanol de Goiás, gerou o primeiro lucro líquido trimestral ao seu controlador, a Nova Fronteira Bioenergia, joint venture entre o grupo São Martinho e a Petrobras Biocombustível. Simbólico, por se tratar de uma usina de etanol construída durante o boom do biocombustível, deflagrado em 2006, o resultado evidencia que o modelo de produção de etanol derrapa no Brasil, pelo menos até o momento. O que garantiu - e poderá manter - os resultados da Nova Fronteira nos próximos anos será a venda de energia elétrica.
No trimestre encerrado em dezembro, a unidade, que surfou na onda de investimentos que motivou muitos investidores do Brasil e do exterior a produzir etanol no Centro-Oeste do Brasil na segunda metade da década passada, apresentou um resultado líquido positivo de R$ 12,5 milhões. Foi um lucro isolado, que pode não se repetir nos próximos trimestres. Mas foi todo gerado pela produção de eletricidade - e não há sinais de que essa lógica vá mudar.
Ocorre que os custos de produção do etanol na unidade goiana, localizada em Quirinópolis, são iguais ou levemente inferiores aos preços de venda do biocombustível. Assim, a geração de resultado operacional é baixa ou nula nesse produto, explica o presidente da São Martinho, Fábio Venturelli. Já a eletricidade, além de não ter custos operacionais - uma vez que a matéria-prima, o bagaço da cana, é um "resíduo" -, tem contratos de venda reajustados anualmente pela inflação, o que não acontece com o etanol.
Na última temporada, a Boa Vista vendeu 306 mil megawatts-hora (MWh) de energia, 190 mil MWh dos quais nos leilões do mercado regulado, com contratos de longo prazo. Os 100 mil MWh restantes foram negociados no mercado livre, que nos últimos anos vem oferecendo remunerações mais atrativas.
O diretor financeiro da São Martinho, Felipe Vicchiato, detalha que a venda de eletricidade rende à Boa Vista uma receita de cerca de R$ 60 milhões por ano. E como não há custos e os contratos são reajustados pela inflação, explica ele, essa receita é revertida quase em sua totalidade em resultado operacional.
A dificuldade em repetir esse resultado, esclarece o diretor financeiro, é que a dívida líquida dessa usina, que gira em torno dos R$ 550 milhões, gera uma despesa financeira, que "anula" o resultado. No ciclo 2013/14, segundo ele, o custo dessa dívida deverá ficar em R$ 50 milhões - e com tendência de alta, em linha com o movimento da taxa básica de juros no Brasil, já que metade do endividamento líquido está atrelado à variação do CDI.
Para a Usina Boa Vista, o pior cenário foi ter seu primeiro lucro somente após seis anos de operação - o que pode até ser considerado positivo, dado o cenário negativo para as margens do etanol no Brasil. Para outros grupos que fizeram a mesma aposta, a consequência foi o mergulho em um processo de recuperação judicial. É caso da usina sul-mato-grossense São Fernando, pertencente ao empresário José Carlos Bumlai, a primeira construída no boom do etanol a pedir proteção contra seus credores.
Para outras empresas, muitas tradicionais no segmento, a consequência da aposta no "projeto etanol Centro-Oeste" foi um elevado endividamento, que as obrigou a vender usinas ou participação em algumas delas. Entre os exemplos está o grupo Cerradinho, que vendeu suas usinas em São Paulo para a trading asiática Noble, e o grupo paulista USJ, que criou uma joint venture com a Cargill para tentar concluir duas usinas em Goiás.
O maior projeto de produção de etanol no Centro-Oeste foi o da Brenco, então capitaneada pelo ex-presidente da Petrobras, Philippe Reichstul, depois vendida para a Odebrecht Agroindustrial (na época, ETH Bioenergia), que concluiu as usinas goianas e levou para seu balanço uma indigesta dívida de R$ 11 bilhões.
A própria São Martinho, que já tinha começado a construir sozinha a Boa Vista, se associou à Petrobras Biocombustível, em 2010, e criou a Nova Fronteira Bioenergia, em parte para concluir o projeto Centro-Oeste. As duas companhias chegaram até a anunciar que a Usina Boa Vista seria ampliada para processar 8 milhões de toneladas de cana até 2015. Mas, diante da pouca transparência das regras para o mercado de combustíveis no país, as parceiras resolveram, de comum acordo, engavetar a ampliação.
"Retomar essa construção não está sequer no horizonte. Saímos do pesadelo que foi 'encher' essa usina. Agora, os aportes serão apenas operacionais", afirma o presidente da São Martinho.

Após absorver R$ 1,3 bilhão em investimentos ao longo dos últimos seis anos, a Boa Vista, usina produtora de etanol de Goiás, gerou o primeiro lucro líquido trimestral ao seu controlador, a Nova Fronteira Bioenergia, joint venture entre o grupo São Martinho e a Petrobras Biocombustível. Simbólico, por se tratar de uma usina de etanol construída durante o boom do biocombustível, deflagrado em 2006, o resultado evidencia que o modelo de produção de etanol derrapa no Brasil, pelo menos até o momento. O que garantiu - e poderá manter - os resultados da Nova Fronteira nos próximos anos será a venda de energia elétrica.

No trimestre encerrado em dezembro, a unidade, que surfou na onda de investimentos que motivou muitos investidores do Brasil e do exterior a produzir etanol no Centro-Oeste do Brasil na segunda metade da década passada, apresentou um resultado líquido positivo de R$ 12,5 milhões. Foi um lucro isolado, que pode não se repetir nos próximos trimestres. Mas foi todo gerado pela produção de eletricidade - e não há sinais de que essa lógica vá mudar.

Ocorre que os custos de produção do etanol na unidade goiana, localizada em Quirinópolis, são iguais ou levemente inferiores aos preços de venda do biocombustível. Assim, a geração de resultado operacional é baixa ou nula nesse produto, explica o presidente da São Martinho, Fábio Venturelli. Já a eletricidade, além de não ter custos operacionais - uma vez que a matéria-prima, o bagaço da cana, é um "resíduo" -, tem contratos de venda reajustados anualmente pela inflação, o que não acontece com o etanol.

Na última temporada, a Boa Vista vendeu 306 mil megawatts-hora (MWh) de energia, 190 mil MWh dos quais nos leilões do mercado regulado, com contratos de longo prazo. Os 100 mil MWh restantes foram negociados no mercado livre, que nos últimos anos vem oferecendo remunerações mais atrativas.

O diretor financeiro da São Martinho, Felipe Vicchiato, detalha que a venda de eletricidade rende à Boa Vista uma receita de cerca de R$ 60 milhões por ano. E como não há custos e os contratos são reajustados pela inflação, explica ele, essa receita é revertida quase em sua totalidade em resultado operacional.

A dificuldade em repetir esse resultado, esclarece o diretor financeiro, é que a dívida líquida dessa usina, que gira em torno dos R$ 550 milhões, gera uma despesa financeira, que "anula" o resultado. No ciclo 2013/14, segundo ele, o custo dessa dívida deverá ficar em R$ 50 milhões - e com tendência de alta, em linha com o movimento da taxa básica de juros no Brasil, já que metade do endividamento líquido está atrelado à variação do CDI.

Para a Usina Boa Vista, o pior cenário foi ter seu primeiro lucro somente após seis anos de operação - o que pode até ser considerado positivo, dado o cenário negativo para as margens do etanol no Brasil. Para outros grupos que fizeram a mesma aposta, a consequência foi o mergulho em um processo de recuperação judicial. É caso da usina sul-mato-grossense São Fernando, pertencente ao empresário José Carlos Bumlai, a primeira construída no boom do etanol a pedir proteção contra seus credores.

Para outras empresas, muitas tradicionais no segmento, a consequência da aposta no "projeto etanol Centro-Oeste" foi um elevado endividamento, que as obrigou a vender usinas ou participação em algumas delas. Entre os exemplos está o grupo Cerradinho, que vendeu suas usinas em São Paulo para a trading asiática Noble, e o grupo paulista USJ, que criou uma joint venture com a Cargill para tentar concluir duas usinas em Goiás.

O maior projeto de produção de etanol no Centro-Oeste foi o da Brenco, então capitaneada pelo ex-presidente da Petrobras, Philippe Reichstul, depois vendida para a Odebrecht Agroindustrial (na época, ETH Bioenergia), que concluiu as usinas goianas e levou para seu balanço uma indigesta dívida de R$ 11 bilhões.

A própria São Martinho, que já tinha começado a construir sozinha a Boa Vista, se associou à Petrobras Biocombustível, em 2010, e criou a Nova Fronteira Bioenergia, em parte para concluir o projeto Centro-Oeste. As duas companhias chegaram até a anunciar que a Usina Boa Vista seria ampliada para processar 8 milhões de toneladas de cana até 2015. Mas, diante da pouca transparência das regras para o mercado de combustíveis no país, as parceiras resolveram, de comum acordo, engavetar a ampliação.

"Retomar essa construção não está sequer no horizonte. Saímos do pesadelo que foi 'encher' essa usina. Agora, os aportes serão apenas operacionais", afirma o presidente da São Martinho.

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