Combustíveis

Biodiesel atrai investimentos na Argentina

Valor Econômico
07/06/2011 09:50
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Na contramão de sua indústria petrolífera, que registra os piores resultados em duas décadas, a Argentina vive uma febre de investimentos na produção de biodiesel. Saindo praticamente do zero, o país conquistou a posição de maior exportador mundial do produto. A nova estrela do setor é o mercado doméstico, cuja obrigatoriedade de misturar 5% de biocombustível no diesel comum foi implementada em janeiro do ano passado. A mistura subiu para 7% no segundo semestre e o governo conversa com produtores para levá-la a 10% no curto prazo.
 

Sem políticas sociais atreladas nem experimentos com matérias-primas alternativas, como a mamona no Brasil, quase toda a produção da Argentina é à base de soja e foi crescendo em ritmo geométrico. De 168 mil toneladas em 2007, aumentou para 1,2 milhão de toneladas em 2009 e deverá alcançar 2,5 milhões de toneladas neste ano.
 

Só os 12 maiores produtores do país, agrupados na Câmara Argentina de Biocombustíveis (Carbio), fizeram investimentos que somam US$ 900 milhões desde 2007. Um dos grandes projetos em andamento é o da americana Cargill, que pretende inaugurar em setembro uma planta com capacidade para processar 240 mil toneladas por ano, na Província de Santa Fé.
 
 
"O complexo oleaginoso argentino é um setor muito bem estruturado e com vantagens competitivas enormes no que se refere à concentração geográfica e à distância dos portos, além de estar tradicionalmente orientado às exportações", afirmou ao Valor o diretor-executivo da Carbio, Victor Castro. Ele ressalta que as principais zonas produtoras de biodiesel e de sua principal matéria-prima estão em um raio de 250 quilômetros do porto de San Lorenzo, em Santa Fé, derrubando os custos logísticos para as exportações.
 

As perspectivas de crescimento do mercado interno, em que o diesel representa 65% do consumo de combustíveis, e os incentivos tributários explicam a explosão de investimentos. Depois da moagem do grão, os produtores argentinos têm duas opções: vender óleo de soja pagando 35% de retenções (imposto sobre os embarques ao exterior) ou transformá-lo em biodiesel por um pequeno custo adicional, mas ser taxado em apenas 2,5%. Além disso, ganham direito à depreciação acelerada de equipamentos e isenção no pagamento de imposto sobre lucro mínimo presumido.
 

Com a introdução do B5, no início de 2010, cerca de um terço da produção nacional passou a ser destinada para o mercado doméstico. Em abril, a China interrompeu suas compras de óleo de soja da Argentina, alegando descumprimento de certificação técnica. O governo argentino decidiu então aumentar a mistura para 7%, a fim de evitar prejuízo aos produtores com a perda de mercado, igualando o percentual adotado em países como a Alemanha. A medida foi bem avaliada e agora o planejamento é adotar a mistura de 10% até o fim de 2011. O Instituto de Tecnologia de Buenos Aires também faz testes com o uso da proporção de 20% de biodiesel em tratores e máquinas agrícolas.
 

Para a Carbio, não haverá problemas para atender a demanda do biocombustível. "A capacidade de resposta das indústrias é boa e ainda temos óleo de sobra", diz Castro. Nos cálculos da consultoria Abeceb.com, que divulgou um relatório sobre o assunto na semana passada, a capacidade instalada aumentará de 2,5 milhões para 3,2 milhões de toneladas por ano, em 2011, com os investimentos em curso.
 

O súbito crescimento da produção de biodiesel já o levou a integrar a lista dos dez maiores produtos de exportação da Argentina. No ano passado, rendeu mais de US$ 1,2 bilhão em divisas. É um contraste importante com o setor de combustíveis fósseis. Devido às importações crescentes de diesel comum e de gás natural, que atingiram quase US$ 3,5 bilhões em 2010, o país teve seu primeiro déficit comercial na balança de petróleo e derivados em 20 anos.
 

A União Europeia é o principal mercado para o biocombustível argentino. Para Castro, deve continuar sendo assim por um bom tempo, já que "eles têm um mandato para reduzir as emissões (de gases do efeito estufa) até 2020". Mas os primeiros sinais de protecionismo começam a aparecer. Em maio, a Espanha dificultou a entrada de biodiesel importado, gerando fortes protestos da chancelaria argentina.
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