Internacional

Argentina espera fechar negócios no setor energético com a China

Valor Econômico
08/11/2004 00:00
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A Argentina vive a expectativa do anúncio, nos próximos dias, de um pacote de investimentos provenientes da China que vem sendo tratado por funcionários do governo e pela imprensa local como o acontecimento mais importante da gestão do presidente Néstor Kirchner, iniciada em maio do ano passado. Especula-se que o valor chegaria a US$ 20 bilhões.
As notícias sobre o chamado "megaanúncio" começaram a surgir há cerca de duas semanas nos jornais, mas sem nenhum detalhe, apenas com a avaliação de fontes oficiais de que, se o misterioso plano der certo, a governabilidade do país estará assegurada pelos próximos quatro anos.
Ontem, os principais jornais argentinos publicaram simultaneamente detalhes do plano, que incluiria investimentos chineses em áreas como transporte rodoviário e ferroviário, exploração de petróleo, turismo e telecomunicações.
O montante total estaria sendo negociado. O jornal "Página 12" disse que o governo não tem ainda a garantia de que serão US$ 20 bilhões, e estaria tentando baixar um pouco as expectativas para não decepcionar a opinião pública se o valor acabar sendo menor. Além disso, até agora não foi divulgado o prazo previsto para a entrada dos recursos.
Também estaria sobre a mesa a possibilidade de Pequim conceder um empréstimo para que a Argentina cancele dívida com o FMI. Segundo a imprensa local, os detalhes devem ser conhecidos durante a visita do presidente chinês, Hu Jintao, que desembarca em Buenos Aires no próximo dia 16 como parte de uma viagem pela América Latina.
O anúncio tem grande importância para o governo porque seria o primeiro grande investimento realizado na Argentina desde a posse de Kirchner. Mais do que isso, chegaria em um momento em que o país ainda não saiu do default, declarado em dezembro de 2001. Desde o agravamento da crise que culminou no calote, a Argentina foi praticamente descartado por grandes empresas e governos estrangeiros como meta de investimentos.
Com base em declarações atribuídas a uma das quatro pessoas do governo que conheceriam o conteúdo do anúncio (o próprio Kirchner, sua mulher -a senadora Cristina Fernández-, o ministro da Economia, Roberto Lavagna, e o chefe de Gabinete, Alberto Fernández), os jornais argentinos afirmaram que o presidente atribui tanta importância ao plano que chegou a dizer que, se tudo der certo, vai ser tão querido pela população como Carlos Gardel, e que passariam a pendurar seu retrato acima do de José de San Martín, herói da independência argentina.
Kirchner teria deixado de ir à cúpula do Grupo do Rio, no final da semana passada no Brasil, para trabalhar nos detalhes finais do acordo. O chanceler argentino, Rafael Bielsa, que representou Kirchner na reunião, afirmou anteontem em entrevista a uma rádio que serão anunciados nos próximos dias investimentos chineses no país, mas não quis confirmar que se trata do "megaanúncio".
Analistas alertam, entretanto, que é necessário ter cautela em relação aos possíveis benefícios de uma aliança com os chineses. "Por causa da sucessão de fracassos econômicos, na Argentina sempre tiveram boa receptividade as operações mediáticas para apoiar ações e planos que prometiam felicidade da noite para o dia", escreveu no jornal portenho "La Nación" o colunista Néstor Scibona.
Segundo a imprensa local, a contrapartida exigida pelos chineses para a realização dos investimentos ainda não está clara, embora seja evidente que a motivação principal do país asiático é garantir o suprimento de matérias-primas para seu gigantesco mercado e diversificar fornecedores.
De acordo com as informações publicadas ontem, uma das possibilidades do acordo é a exploração de petróleo em águas profundas em associação com a recém-criada estatal argentina de energia Enarsa. Os chineses também investiriam na extração de minério de ferro e financiariam obras de infra-estrutura, com ênfase na modernização da rede ferroviária. O agente financeiro para levar a cabo os diversos projetos do plano seria o banco português Espírito Santo.

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