Petrobras

Alta de custos faz Petrobras rever plano de investimento

Valor Econômico
15/07/2005 00:00
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Os aumentos dos preços globais de produtos e serviços para a indústria de petróleo levaram a Petrobras a refazer seus projetos de investimento. Esse é um dos motivos do adiamento da divulgação do Plano Estratégico da companhia ajustado para 2005-2011. A divulgação estava prevista para abril.
Agora, para que todos os projetos possam ser levados adiante, a estatal teria que gastar entre US$ 65 bilhões e US$ 70 bilhões para não cortar investimentos, segundo o Valor apurou com fontes da companhia. O valor final não está fechado porque depende dos projetos que serão priorizados e os que serão postergados. O plano estratégico para 2004-2010, divulgado no ano passado, previu investimentos totais de US$ 53,6 bilhões no período.
"A empresa está reavaliando os investimentos porque a carteira de projetos estava muito grande. Houve mudança na estrutura de custos no mercado internacional e por isso estamos cortando (projetos), tendo o cuidado de evitar romper a curva de produção de óleo" explicou uma fonte, citando a importância da oferta de gás, os projetos de refino e petroquímica e os da área internacional.
A direção da Petrobras está tentando ajustar os projetos a novos orçamentos, que tiveram crescimento exponencial. O aumento de gastos é facilmente observado nos balanços da companhia. Entre o primeiro trimestre de 2003 e o primeiro trimestre de 2005 o custo de refino, medido em dólares por barril, aumentou 102% (US$ 0,90 para US$ 1,82). O custo de extração de petróleo subiu 109%, de US$ 2,85 para US$ 5,95. Na média de 2003 e 2004, as despesas com vendas, gerais e administrativas, aumentaram 37%, saltando de R$ 6,557 bilhões para R$ 8,965 bilhões. Mas já é possível observar que houve uma redução de 9% dos gastos com esse ítem entre o último trimestre de 2004 e o primeiro trimestre de 2005.
Entre os custos da Petrobras em ascensão estão os de aluguel - normalmente firmados pelo período de quatro anos -, das plataformas de perfuração que tiveram contrato renovado recentemente. Segundo dados enviados ao Valor pela Petrobras, os preços aumentaram entre 9,1% a 107,5%, como é o caso da plataformas Sedco 710 e "transocean driller", respectivamente.
Em tese, o aumento dos custos industriais de uma empresa de petróleo em período de alta de preços do óleo no mercado internacional é amplamente compensado pelo crescimento das receitas geradas pelo mesmo motivo. Não é o caso da Petrobras, cuja política de preços dos combustíveis - especificamente a gasolina, óleo diesel e gás de cozinha (GLP) - é muitas vezes subordinada a objetivos políticos e macroeconômicos de governo. E são justamente esses três derivados que respondem por 60% da receita da companhia na área de Abastecimento, onde é consolidado o refino.
"A empresa acaba arcando com os custos sem colher a totalidade dos bônus nas vendas", afirma Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infra Estrutura (CBIE).
Exemplo claro de projeto que foi adiado em toda sua extensão é o Gasoduto Sudeste Nordeste (Gasene). Além do aumento dos custos desse projeto, cujo orçamento inicial saltou de US$ 1,2 bilhão para US$ 2,29 bilhões , aconteceram mudanças no cenário interno e externo que levaram a estatal a colocar o pé no freio. Quando foram feitas as primeiras avaliações do Gasene, cada metro cúbico de gás transportado por polegada de tubo construída custava US$ 25. Passados 12 meses, preço do produto saltou para US$ 45.
Outro fato que impactou negativamente o projeto foi a crise sócio-política na Bolívia, de onde se previa aumentar entre 4 milhões e 10 milhões de metros cúbicos diários a importação de gás. Esses volumes se somariam aos 30 milhões de metros cúbicos previstos no contrato que permitiu a construção do Gasbol mas agora a Petrobras não prevê importar do país vizinho nem uma molécula a mais.
A isso se somou a redução das reservas estimadas do campo de Mexilhão (no bloco BS-400), de onde seria enviado parte do gás para o Nordeste. Inicialmente, a estatal pretendia produzir ali 18 milhões de metros cúbicos de gás por dia e agora trabalha com uma estimativa mais realista, de produzir de 12 milhões a 15 milhões de metros cúbicos/dia. Os investimentos iniciais para desenvolvimento de Mexilhão já estão sendo feitos pela Petrobras, que ao mesmo tempo negocia uma parceria com a Repsol YPF.
Todos esses revezes levaram ao adiamento, pelo menos por enquanto, de dois terços do Gasene. Dos três trechos previstos - o primeiro ligando Cabiúnas (RJ) a Vitória (ES), o segundo ligando Vitória a Cacimbas (ES), e um terceiro ligando Cacimbas (ES) a Catu (BA) - apenas um está em construção. Trata-se do Cacimbas-Vitória, cujas obras devem ser concluídas em dezembro. A partir dele será possível escoar gás produzido nos campos de Peroá-Cangoá até a capital capixaba.
Os outros dois trechos encontram-se em fase de "ajustes no cronograma" da companhia, como prefere dizer uma fonte da estatal. Outros gasodutos com obras que em fase de reavaliação são o Gasfor II e o Nordestão II.
"O volume de investimentos globais da Petrobras continua em pé e não vai faltar gás no Nordeste. Apenas estamos fazendo a gestão desses investimentos, adiando alguns deles", frisou a fonte. O Gasene vai interligar as malhas Sudeste e Nordeste de gasodutos da Petrobras. A obra terá 1.365 quilômetros de extensão e capacidade para transportar até 20 milhões de metros cúbicos de gás por dia.

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