Internacional

A fronteira do petróleo russo fica no meio do nada

Valor Econômico
07/12/2011 12:12
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Há lugares que ficam no meio de lugar nenhum. Aqui é um pouco mais longe.

O lugar é Verkhnechonsk, um campo de petróleo no leste da Rússia operado pela TNK-BP Ltd. É uma das áreas mais remotas do planeta. Para chegar, você tem que voar para a Sibéria, pegar um avião turboélice antigo para dentro da taiga, a floresta boreal. Depois, ir de helicóptero em direção ao norte. De Moscou, a jornada dura um dia, incluindo escalas - e mais que isso, se houver uma nevasca.

É tão longe de tudo que a TNK-BP, joint venture da BP PLC e um grupo de soviéticos bilionários, opera unidades usando um link de vídeo a partir de um escritório em Irkutsk, a quase 1.000 quilômetros de distância. "É como viver em uma ilha", diz Albert Gilfanov, vice-gerente dos campos de petróleo.

A Rússia é uma superpotência energética, com 13% das reservas de petróleo do planeta e um quarto das de gás natural. Embora tenha caído muito desde o colapso da União Soviética, a produção de petróleo do país se recuperou fortemente, alcançando um novo recorde pós-União Soviética de 10,3 milhões de barris diários em outubro.

Ainda assim, o principal suporte do patrimônio de hidrocarbonetos da Rússia - os grandes campos de petróleo da era Soviética no oeste da Sibéria - está em declínio. Para manter a produção estável, a Rússia não tem outra opção a não ser se expandir para novas áreas como o Leste da Sibéria - onde as reservas de petróleo são menos abundantes, os custos de produção são mais altos e os desafios logistícos são espantosos.

Algumas empresas já estão lá. A TNK-BP já extrai petróleo de Verkhnechonsk, um dos maiores campos do Leste da Sibéria, desde 2008.

Mas as dificuldades que enfrenta são enormes. O frio é assombroso mesmo para a Sibéria, onde a temperatura pode cair para 60 graus negativos, momento em que o trabalho externo é paralisado. O assentamento mais próximo fica a 400 quilômetros de distância, e as florestas são cheias de ursos, lobos e alces. O petróleo se encontra abaixo de camadas de rocha dura e depósitos de sal, o que torna a perfuração mais difícil.

E talvez pior de tudo, o tamanho do prêmio não é nada inspirador. O leste da Sibéria tem 5 bilhões de barris de reservas comprovadas de petróleo, segundo a Agência Internacional de Petróleo, comparado a 48 bilhões de barris da oeste da Sibéria.

Outras áreas potenciais para exploração na Rússia são ainda mais remotas e mais caras para desenvolver: de acordo com uma estimativa, US$ 500 bilhões serão necessários para abirir grandes campos de petróleo e gás ao largo do Ártico. Os custos de produzir petróleo no leste da Sibéria e outras áreas remotas são altos - entre US$ 6 e US$ 10 o barril, comparados a US$ 4 a US$ 8 o barril nas províncias petrolíferas mais antigas do país, de acordo com a agência. Embora o petróleo do leste da Sibéria seja vendido por mais de US$ 100 o barril, os custos de capital e transporte comem uma boa parte do lucro.

E, dentro do atual sistema fiscal da Rússia, existe pouco incentivo para investir. Por exemplo, a parte do governo em dois novos campos de petróleo da Rússia no Ártico - o impacto fiscal do governo sobre o fluxo de caixa dos campos - é de 72%, comprado com 53% em uma das principais bases marítimas do Brasil, o campo Lula, de acordo com o Morgan Stanley,

"Para que esses projetos sejam bem-sucedidos [...] existe a necessidade de mudanças significativas no regime fiscal", disse Glen Waller, diretor da petrolífera americana Exxon Mobil Corp. na Rússia, em uma conferência recente em Moscou.

Ainda asim, os governantes da Rússia são tão dependentes do dinheiro que recebem das petrolíferas que eles temem a redução de impostos. A receita proveniente do petróleo e do gás representa quase a metade do que entra no orçamento russo.

A AIE projeta que a produção russa de petróleo vai se estabilizar nos próximos anos e, a partir daí, vai iniciar um lento declínio, na medida em que a produção dos novos campos não seja capaz de compensar a queda dos campos mais antigos.

Verkhnechonsk foi descoberto em 1978 por geólogos soviéticos. Mas o campo foi considerado longe demais dos mercados de exportação da URSS e concluiu-se que não valia a pena explorá-lo.

Isso mudou em 2006, quando o governo começou a construir o oleoduto ligando o leste da Sibéria ao Oceano Pacífico, conhecido pela sigla Espo - um projeto bilionário para levar petróleo siberiano para a Ásia. Logo, campos isolados como Verkhnechonsk tinham uma saída para os mercados de rápido crescimento do Oriente.

A TNK-BP entregou os primeiros barris de petróleo de Verkhnechonsk no Espo em outubro de 2008. Espera-se que a produção chegue a seu pico em 2014, com 160.000 barris por dia.
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