Combustíveis

Estratégia comercial da Petrobras trará mais desafios quando preços dispararem

Reuters, 17/05/2023
17/05/2023 08:43
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O CEO da Petrobras, Jean Paul Prates, garantiu que a nova estratégia comercial anunciada nesta terça-feira (16) pela petroleira irá preservar a rentabilidade da empresa, mas analistas acreditam que a prerrogativa será mesmo testada quando os preços dispararem e houver pressão política por controle inflacionário.

A nova estratégia deixa de seguir o preço de paridade de importação de combustíveis, em linha com o prometido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições. Segundo Prates, a petroleira passará a praticar valores que forem os mais favoráveis para ela e para seus clientes, ao mesmo tempo que evitará volatilidades externas aos consumidores, sem se desgarrar da referência do mercado global.

Juntamente com o anúncio, a empresa cortou preços de gasolina, diesel e gás de cozinha, em um movimento amplamente esperado, uma vez que seus valores estavam com prêmios ante cotações internacionais. Os ajustes vieram em linha com o previsto pelo mercado.

"Jean Paul e Petrobras foram muito felizes com o momento do anúncio, é um momento de câmbio mais arrefecido e preço do petróleo mais comportado. Tinha espaço para dar essa redução de preços", afirmou especialista da consultoria CBIE, Pedro Rodrigues.

"Quando o mercado está em baixa, o preço está arrefecido e petróleo comportado, é tudo céu de brigadeiro... depois que o preço começa a subir como é que fica?", questionou o Rodrigues, pontuando que a Petrobras, como agende dominante, precisa importar para atender a demanda interna e poderá incorrer em prejuízos caso não repasse os custos futuramente.

Em entrevista à CNN, Prates brincou com a questão do momento de mercado em que foi anunciada a nova estratégia, ao ser perguntado sobre como a Petrobras agirá quando os preços subirem. Ele respondeu brincando que foi por isso que o anúncio ocorreu agora. "É isso que estão pensando, fiz essa brincadeira, porque é isso que se pensa", disse, acrescentando que a petroleira irá responder com ajustes para cima ou para baixo, mas não na mesma hora, proporção ou volatilidade como ocorreu em 2021 e 2022.

Ao mesmo tempo em que defende que não haverá intervenção estatal, Prates anunciou a nova estratégia da petroleira com jornalistas nesta terça-feira em Brasília, juntamente com o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, o que foi apontado por analistas como um sinal de que o governo também dará as cartas. O ministro disse que a nova política ajudará no combate à inflação, sem intervenção do governo na empresa.

Difícil de prever
Com o fim do PPI, ficou mais difícil para o mercado antever os movimentos da Petrobras e a empresa ganhou mais flexibilidade para atuar conforme considerar necessário, apontaram especialistas.

Um teste para a nova gestão da petroleira poderá já ocorrer no fim do ano, quando geralmente os preços de diesel sobem, com a época de furações nos EUA, aumento da demanda de combustíveis no Hemisfério Norte devido ao inverno, dentre outras questões, pontuou o analista de petróleo e derivados da StoneX, Pedro Shinzato.

Uma fonte da companhia disse que o anúncio traz "mudanças gigantescas". Na prática, a Petrobras poderá espaçar mais seus ajustes, e com a possibilidade inclusive de movimentos quase que anuais ou semestrais nos preços.

O entendimento na atual gestão é que períodos maiores sem reajustes não trarão prejuízos, porque as perdas ou ganhos se compensam, disse essa fonte. "Exemplo: inverno e verão americano, você perde em um e ganha em outro. O problema é a capacidade em momentos como uma guerra... mas aí o ajuste é dentro do impacto do importado. Se a dependência externa é de 25%, o reajuste seria modelado aos 25% e não ao preço de 100%", afirmou.

Ao divulgar a nova política, a petroleira apontou que a estratégia comercial usará referências de mercado como o custo alternativo do cliente, buscando ser o mais competitiva possível, e o valor marginal para a Petrobras, baseado no custo de oportunidade incluindo produção, importação e exportação.

"As informações divulgadas não são suficientes para afastar o temor, justificável pelas declarações dadas no passado, de que a empresa, não estatal e com ações em bolsa, passará a ser usada para fazer política pública", disse o sócio líder da área de Energia do Campos Mello Advogados, Alexandre Calmon.

"Dão ainda a entender que a Petrobras poderia praticar preços que violem a ordem concorrencial ao considerar um nada claro ´custo alternativo do cliente´. Só a prática dirá, mas já antecipo várias portas abertas para contestação seja pelos acionistas ou pelos concorrentes da Petrobras."

O sócio-diretor da Raion Consultoria, Eduardo Oliveira de Melo, afirmou que o anúncio trouxe incerteza, imprevisibilidade e um componente político entrando mais fortemente na precificação, mas que ainda é cedo para fazer um prognóstico.

"O cenário atual acaba favorecendo, já favoreceu desde o início do ano, que agente teve recuo dos preços dos combustíveis... (mas) o que será do dia de amanhã? Como que vai funcionar essa política quando vier uma pressão, o petróleo for a 90 dólares, por exemplo, o que pode acontecer, o que me parece é que essa política vai funcionar muito mais para baixo do que para cima, porque tem um custo político envolvido", completou.

O petróleo Brent fechou nesta terça-feira cotado a 74,91 dólares o barril.

Por outro lado, o professor da PUC-Rio Edmar de Almeida, ponderou que será uma abordagem positiva se a Petrobras for fiel ao que comunicou ao mercado, de que levará em conta o contexto de concorrência em cada região e vai definir seu preço com base no custo de oportunidade do cliente.

"Praticar preços competitivos pressupõe um respeito ao mercado. Isto é muito diferente de preços definidos pelo apenas pelo custo de produção, o que poderia desorganizar a cadeia de valor do setor de derivados e etanol no Brasil", afirmou.

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